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Quinta-feira, 28 de março de 2013
A imagem da Unilever virou suco |
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As teorias sobre crise empresarial costumam respaldar-se em vários pressupostos. Um deles é de que a crise é democrática e não distingue empresas por seu porte, ou seja, todas estão sujeitas a ela, grandes, pequenas ou enormes. Mais ainda: quanto maior a empresa, maior tende a ser a sua crise. Um segundo pressuposto é que a crise em geral não explode de uma vez, mas se desenvolve gradativamente, o que significa que, em boa parte dos casos, é possível evitá-la, preveni-la e, no mínimo, reduzir o seu impacto. Um terceiro pressuposto , muito caro aos comunicadores, é que um bom gerenciamento das crises atenua os efeitos que elas podem causar na reputação das empresas ou organizações.
Isto posto fica mais fácil entender porque algumas empresas e marcas de prestígio andam apanhando que nem loucas neste momento e também porque, ao que parece, não conseguirão se safar da crise atual sem grandes seqüelas. Este é o caso da Unilever que, a exemplo de outras grandes empresas, gerenciou tão equivocadamente a sua crise que viu sua reputação contaminada em poucos dias, simplesmente porque demorou para descobrir (ou assumir) o que havia acontecido com o seu suco Ades e sobretudo para comunicar-se com o mercado.
As crises existem, sempre existiram, mas não apanham as organizações do mesmo jeito porque há formas e formas de combater a crise. A melhor delas é exatamente ter consciência dos riscos, disposição, planejamento e competência para enfrentá-los e uma comunicação estratégica para dar conta de seus impactos sobre a imagem e a reputação. Transparência, profissionalismo, ética são palavras-chave no combate a crise.
Não dá para atenuar os efeitos da crise fazendo o que a Unilever fez: buscar justificativas para a sua demora (“havia um final de semana no meio da história”, como se uma crise dessas, envolvendo a saúde da população, pudesse respeitar final de semana!) e não ser transparente desde o início para reconhecer o erro e encaminhar claramente a solução, garantindo a todos que o problema não mais se repetirá.
As organizações e suas marcas sempre são penalizadas quando ocorrem as crises, mesmo quando em princípio elas não são culpadas por elas. Pesquisa recente evidencia que consumidores estão deixando de lado, por uma série de razões e suco contaminado pode ser uma delas, as marcas líderes migrando para marcas genéricas ou de menor prestígio. É a crise, cara, e aí não tem jeito.
O importante, quando se examinam casos de crise, é verificar em que medida a arrogância, a displicência, a falta de compostura de algumas organizações contribuíram para que elas aparecessem ou ainda para que as labaredas aumentassem de tamanho. Não foi esse o caso da Volks com o Fox e seu banco traseiro repleto de armadilhas? Não foi esse o caso da Merck com o Vioxx que matou muita gente? Não foi esse o caso do Renan Calheiros (pessoas também enfrentam crises!) que insistia na história dos bois vendidos a preço de ouro? Não foi esse o caso da TAM no episódio do apagão aéreo anos atrás e da Gol mais recentemente, com a enorme incompetência da alta administração ( a primeira teve o presidente mais odiado dos últimos anos, que já retornou à ativa, como se a gente não tivesse memória, e a outra um patrono que andou em prisão domiciliar!)?
Se é verdade que não se pode brincar com as crises, mais verdade ainda é que é preciso estar atento, preparado para enfrentá-las.
Há empresas que imaginam que crises, sobretudo as de imagem, podem ser enfrentadas com uma agência batuta, daquelas que salvam a pele de todo mundo, e que praticam a tese equivocada e não ética de que “pode sujar o que quiser porque estamos aqui para fazer a limpeza”, o que agrada empresários incompetentes e corruptos que não têm compromisso algum com a responsabilidade social, a gestão democrática e a comunicação transparente.
Esta é a proposta do marketing verde, aquele discurso cínico de sustentabilidade que costuma caracterizar empresas predadoras, assessoradas por consultores espertos e agências louquinhas para levar a grana dos que não conseguem conciliar teoria e prática. Pois não é que até a indústria tabagista e a de agrotóxicos (produtoras de drogas e venenos, respectivamente) andam se proclamando socialmente responsáveis, sustentáveis ou coisa que o valha, com a complacência hipócrita de agências de propaganda, assessorias de RP e de imprensa? Uma contribui para matar com os seus produtos os clientes que acreditam nela e outra emporcalha solo, água, ar etc sem dó. Puxa, pode ser até que agrotóxico aumente a produtividade (se é só que isso interessa neste mundo) mas que é sustentável pera lá, não dá para engolir. Só o Chico Graziano (que chegou a perpetrar um artigo no Estadão falando em agrotóxico sem veneno) acredita nisso, mas a posição dele é conhecida a favor das agroquímicas e das empresas de biotecnologia e ele tem o direito de defender o que quiser e democracia existe para isso mesmo. Mas a gente não é ingênuo a ponto de acreditar em argumentos pretensamente científicos quando se quer tapar o sol com a peneira. Afinal de contas, empresas predadoras contam em seu staff até como ganhadores de Prêmio Nobel, como algumas farmacêuticas, agroquímicas etc. Vale tudo quando o negócio é aumentar os lucros, não é mesmo?
Os conceitos estão fora do lugar no mundo empresarial e por este motivo as crises andam pipocando a todo momento. A insistência em tapar o sol com a peneira não tem surtido efeito e neste mundo conectado, que vê seu futuro ameaçado pela ação de empresas e governos predadores, por falta de consciência cívica, e por um modelo que estimula o consumo a qualquer custo com o argumento de que aumenta o emprego, esta conversa não convence mais.
As crises têm a vantagem de expor as mazelas de muitas organizações (que demitem sem dó apesar do discurso da “gestão de pessoas de excelência” e de prêmios de entidades de Recursos Humanos), de trazer a tona posturas não éticas ( quantos processos acumula a AmBev por causa de assédio moral e quantas grifes de moda se valem do trabalho escravo para fabricar as suas peças, não é mesmo Zara e agora a Cori?).
As crises valem para alguma coisa, não há dúvida. Empresas que não são éticas, incompetentes, que privilegiam o autoritarismo e a irresponsabilidade social costumam acertar as contas com a sociedade e o mercado nessa hora. Elas merecem estar nas capas dos jornais, nas chamadas dos grandes telejornais, na boca do povo. E sobretudo para serem objeto do burburinho ruidoso, ensurdecedor, das redes sociais. Como anda apanhando a Unilever no Twitter e no Facebook!
As crises servem para diferenciar empresas boas de empresas vilãs. E não adianta imaginar que basta chamar agências de comunicação ou de RP , assessorias de imprensa ou consultorias nessa hora porque os milagres não existem. As agências e assessorias só conseguem, quando o cliente é ruim, apenas prorrogar o sofrimento. É como advogado que defende criminosos confessos: no máximo conseguem reduzir a pena, mas nunca tira-los das grades.
A natureza é implacável no universo empresarial: quando a chuva chega forte (crises mal resolvidas são verdadeiras tempestades), é um “pega pra capar”.
A Unilever é grande, assim como a sua crise, e deve superar isso. Mas, como nada se apaga nas redes sociais, no Google, na memória dos consumidores e de especialistas em comunicação/marketing como muitos de nós, este case vai ser lembrado por muito tempo e figurar nos livros e palestras da área como exemplo de má gestão de crises.
Quem contamina o suco e não sabe o que fazer, contamina a própria imagem. Como se pode ver, o problema da Unilever não está apenas no processo de fabricação de seus produtos, mas na competência de sua comunicação/marketing. É assim mesmo: há empresas que sabem falar com competência (investem pesado em comunicação/marketing como a Unilever) , mas não tem disposição para ouvir. São arrogantes, pretensiosas e por isso, na hora das crises, “bombam” nas redes sociais.
Quando a imagem vira suco, “Inês é morta”. Vai dar um trabalhão para limpar tudo isso. Em muitos casos, a mancha sai até com uma certa rapidez, mas o cheiro, o sabor, como diz aquela tradicional propaganda de produtos para cabelo, vão continuar o mesmo.
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Quinta-feira, 28 de março de 2013
A Comunicação Integrada existe mesmo? |
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A expressão “comunicação integrada” já ganhou as ruas faz tempo e hoje está incorporada definitivamente ao discurso acadêmico e profissional na área de comunicação, em particular na chamada Comunicação Empresarial. Mas será que podemos efetivamente falar em Comunicação Integrada?
Bem, a primeira pergunta, absolutamente óbvia, é: de que integração estamos falando? E aí já começam os problemas. Há muitas leituras possíveis para esta expressão consagrada e boa parte delas não se respalda em definição ou conceito algum. Há empresas (geralmente agências ou assessorias de comunicação) que carregam esta expressão na sua própria razão social e basta consultar o Google para perceber que existem dezenas de “comunicações integradas” pelo mundo afora. Mas vamos com calma.
A comunicação só pode ser chamada realmente integrada se estiver integrando alguma coisa. Geralmente, consideram-se integrados o processo ou ação de comunicação que correlaciona, aglutina diversas competências e atividades profissionais (jornalismo, RP, Propaganda, Marketing etc) e que estão respaldados em uma estratégia comum, em diretrizes comuns.
Os casos mais comuns são os de uma empresa ou entidade que vai promover uma ação de comunicação (lançamento de um produto, desenvolvimento de um projeto de relacionamento com a comunidade etc) e que busca integrar todos os seus sub-setores ou sub-áreas de comunicação, tendo em vista aumentar o seu poder de fogo, envolver diferentes mídias e públicos. Se isso é feito a partir de uma diretriz comum, tendo em vista um objetivo comum, podemos falar em comunicação integrada.
Mas há problemas a resolver antes que isso efetivamente aconteça. De imediato, é preciso reconhecer que formação dos profissionais de comunicação não contempla uma perspectiva integrada, muito pelo contrário. Somos formados em um “fragmento” da comunicação (jornalismo, relações públicas, publicidade etc), dispomos de registros profissionais específicos e de uma visão complicada em relação aos demais fragmentos. Integrar jornalistas e relações públicas, por exemplo, ao longo do tempo, tem sido uma tarefa difícil e o resultado desta aproximação, por um equívoco formidável, tem sido mais tapas e safanões do que abraços e beijos, com a interferência muitas vezes indevida de representantes de sindicatos ou da federação dos jornalistas e dos conselhos regionais de relações públicas.
Além disso, jornalistas e relações públicas costumam ter restrições e preconceitos com relação ao trabalho do publicitário, visto como profissional que gasta dinheiro, não tem responsabilidade e cuja função básica é ludibriar a opinião pública, mais uma leitura complicada porque generaliza para uma categoria posturas doentias de determinadas agências a serviço de clientes não éticos.
Além disso, as organizações costumam estar subdivididas em “caixinhas” ou feudos que se multiplicam em seu organograma, cada um deles com um chefe e um poder específico decorrente desta posição. Estas “caixinhas” costumam não dialogar e estão mais disputando espaço e poder nas organizações do que realmente buscando a integração. A Comunicação vê com reservas a área de RH, que, por sua vez, tem problemas com o Setor Financeiro e todos expressam seu descontentamento com relação ao pessoal da Tecnologia da Informação. Uma babel organizacional que ninguém consegue entender. Que integração é essa?
A comunicação integrada não pode ser pensada apenas como uma somatória de competências em comunicação, mas como um esforço conjunto de todos em uma organização para que os processos de comunicação estejam realmente integrados em todos os níveis. Afinal de contas, a comunicação não ocorre apenas a partir e com a presença dos profissionais de comunicação, mas envolve, na prática, todas as pessoas em uma organização: as secretárias, as telefonistas, os motoristas que buscam os visitantes no aeroporto, os sisudos seguranças, as colegas que servem o café (eta coisa boa!). A comunicação só será integrada, se assim for pensado o processo global de comunicação e aí não vale separar a comunicação interna da comunicação externa, a comunicação institucional da comunicação mercadológica porque, no fundo, a comunicação é uma só.
Não é fácil, pois, encontrarmos a comunicação integrada por aqui e ela continua sendo mais um desejo, uma necessidade do que uma realidade. Está mais na teoria do que na prática.
Evidentemente, todo sabemos que a comunicação integrada (mas integrada mesmo) é a que deve prevalecer mesmo porque, quando isso não ocorre, as áreas batem cabeças, a imagem e a reputação das organizações são penalizadas e todos estão mais empenhados em concorrer do que em colaborar.
É preciso mudar a cultura, a postura das organizações e dos profissionais para que a comunicação integrada aconteça. Não é fácil. É como aquela história dos ratinhos que gostariam que o gato usasse um guizo para indicar a sua presença e permitir a fuga com antecedência. Mas, sempre há um “mas” para atrapalhar a história: alguém tem que por o guizo no pescoço do gato e é aí que a porca torce o rabo. Quem se habilita?
A comunicação integrada fará com que alguns chefes saiam da zona do conforto em que se encontram e isso eles não querem de jeito nenhum. Falar é fácil pra caramba, mas fazer a comunicação integrada é osso duro de roer. Mas vale a pena tentar. Vamos juntos nessa?
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Sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Falta cultura de comunicação à universidade brasileira |
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É fato indiscutível que a universidade brasileira, com raríssimas exceções, não pratica uma cultura de comunicação, ou seja, ela, de maneira geral, não assume o exercício da comunicação como estratégico e, em consequência, não está capacitada para acessar ou ser acessada por muitos de seus públicos de interesse.
Certamente, esta realidade tem a ver com os sistemas de gestão que tipificam as nossas instituições universitárias que, com raras exceções, adotam um processo de decisão centralizado, em que não há espaço para o diálogo ou para a chamada administração participativa.
Os diversos segmentos que compõem a estrutura da universidade ‑ docentes, funcionários e alunos ‑ quase sempre restringem o seu contato às instâncias burocráticas ou operacionais que legitimam seus papéis e funções, sem buscar, por falta de mecanismos facilitadores, uma maior interação.
Evidentemente, isso não significa que a universidade não desenvolva ações isoladas de comunicação. O número de eventos promovidos pelas nossas instituições universitárias é significativo e abrange as inúmeras áreas do conhecimento. Muitas instituições privadas têm se mostrado, inclusive, arrojadas em suas campanhas publicitárias, ainda que limitadas ao período pré‑vestibular. Algumas universidades públicas, federais ou estaduais, dispõem de estruturas de comunicação, editam periódicos (jornais, revistas ou boletins) e mantêm um fluxo regular de informações com os meios de comunicação.
Há que se considerar, no entanto, que tais ações de comunicação, embora gerem resultados parciais e localizados, não configuram uma autêntica cultura de comunicação. Na verdade, uma cultura de comunicação se define exatamente por uma prática que extrapola a mera sobreposição de atividades isoladas. Ela está legitimada pela consciência, comum a todos os níveis da organização, de que é necessário manter relacionamentos saudáveis e produtivos e de que a tarefa de comunicar não é exclusiva das estruturas profissionalizadas de comunicação.
Em uma organização que prima por uma autêntica cultura de comunicação, todos os seus integrantes se sentem envolvidos com ela e almejam, apesar das diferenças ou mesmo das oposições, o desenvolvimento pessoal ou institucional.
A maioria dos dirigentes das nossas universidades enxerga a comunicação sob uma perspectiva meramente instrumental. A ausência de uma visão estratégica não permite que a comunicação flua com facilidade entre os vários segmentos da universidade ‑ direção (reitoria), corpo docente, corpo discente, funcionários ‑ e há obstáculos também importantes no relacionamento entre a universidade e a sociedade.
Embora, em muitos casos, o discurso oficial pareça inserir a comunicação como uma de suas prioridades, na prática, as instituições universitárias relegam‑na a um plano inferior. Julgam‑na, quando muito, útil, mas, dificilmente, estratégica; portanto não a incorporam em seu planejamento e a ela destinam recursos (humanos e materiais) insuficientes para dar conta das funções que ela deve obrigatoriamente desempenhar.
Da mesma forma, ela se viabiliza a partir de atividades fragmentadas, nas quais muitas vezes não há, ao menos, uma visão concreta dos seus públicos estratégicos, o que representa desperdício de recursos e reduzida eficácia.
A perspectiva adequada seria a de encarar a comunicação como fundamental e assumir o conceito moderno de comunicação integrada, gerida a partir de uma política global de comunicação. Ao contrário das empresas privadas, no entanto, as instituições universitárias ainda não caminharam neste sentido e se ressentem, por causa disso, de legitimidade. De maneira geral, elas encontram dificuldade para se justificar perante diversos segmentos sociais, que as julgam elitistas, improdutivas e autoritárias.
A visão instrumental de comunicação, que a rebaixa no conjunto das prioridades definidas pelas instituições universitárias, resulta, também, na ausência de estruturas profissionalizadas e com participação efetiva no processo de tomada de decisões.
Ainda que, em boa parte delas, a área de comunicação esteja sob a responsabilidade de profissionais de reconhecida competência, não dispõe de autonomia para traçar diretrizes e estabelecer planos de ação. Ocorre que, com poucas exceções, esta área está atrelada de tal forma à estrutura de poder da universidade que vive permanentemente sob tutela (ou censura, em alguns casos), o que lhes retira a agilidade para responder às demandas de informação/comunicação. Fica evidente, para os que acessam a universidade, que a área de comunicação não passa de um mero apêndice desta estrutura de poder e que, na maioria dos casos, atende mais a interesses pessoais do que institucionais. Não é rara a associação da figura do coordenador/assessor de comunicação ao papel de chefe de gabinete, ou seja, de alguém mais comprometido com o reitor do que com a própria instituição. Em boa parte das vezes, ele é antes um elemento de confiança do reitor ou da direção que um profissional a serviço da instituição e tende a abandonar as suas funções, quando, por exemplo, o reitor é substituído. Por ser, então, um cargo preenchido por decisões pessoais e políticas, ele se atrela a uma visão de curto prazo. Este fato pode explicar a descontinuidade dos programas de comunicação das nossas universidades, sobretudo as públicas.
Além disso, a área de comunicação está, quase sempre, subdimensionada, em termos de recursos humanos e materiais, sendo incapaz de colocar em prática as inúmeras atividades requeridas pela instituição para o desempenho das suas vertentes de ensino, pesquisa e extensão. Nem sempre, ainda, os profissionais que integram esta área têm um perfil abrangente ou comungam com a perspectiva moderna de comunicação como insumo estratégico, atuando mais como tarefeiros do que como executivos de comunicação.
A falta de definição de uma carreira para o profissional de comunicação nas universidades acaba fazendo com que ela ou recrute colaboradores no seu próprio quadro docente (geralmente dos cursos de comunicação) ou lance mão de estagiários, a baixo custo. Em ambos os casos, a idéia que vigora é reduzir despesas, mesmo porque elas não estão previstas no orçamento. No primeiro caso, o profissional, que é também docente, encontra dificuldade para conciliar as duas tarefas, ambas importantes. No segundo caso, a falta de experiência dos estagiários sinaliza para a improvisação e o amadorismo.
A maioria das nossas universidades está preparada mais para falar do que para ouvir, ou seja, por uma distorção inerente à sua perspectiva de comunicação, elas desempenham mais o papel de transmissoras de informações do que de captadoras das demandas dos diferentes públicos de interesse. Este fato tem estreita relação com a cultura universitária brasileira, marcada pelo individualismo, pela arrogância, pelo corporativismo, pela falta de sensibilidade para com os problemas nacionais e pelos preconceitos com relação a possíveis parceiros que se situam fora do ambiente universitário.
Uma instituição que vislumbra os demais setores da sociedade com superioridade e que, em geral, só consegue eleger os seus próprios problemas como prioritários, com certeza, não está disposta a ouvir. Por isso, está longe de praticar a comunicação autêntica, porque essa pressupõe horizontalidade entre os interlocutores.
Não é por outro motivo que a "comunicação" da universidade brasileira se restringe a duas modalidades: a científica, exercida exclusivamente entre os pesquisadores e seus pares, e a burocrática, pautada por normas e regulamentos, expressão do oficialismo administrativo. Também se justifica a partir deste fato a não priorização, pela universidade, do esforço de divulgação, que representa, em última instância, a democratização do saber.
A universidade brasileira não valoriza o trabalho de seus docentes que se voltam para o relacionamento com a sociedade, por não reconhecê‑lo como uma de suas funções primordiais. Também o desestimula porque considera sua produção voltada para os cidadãos como de relevância menor ou duvidosa. Sabidamente, aos olhos da universidade brasileira e das instituições de fomento, a produção de livros didáticos ou de artigos de divulgação é vista com preconceito, enquanto se sobrevaloriza o trabalho acadêmico. Na moeda da comunicação universitária brasileira, um artigo publicado em uma revista internacional indexada vale mais do que uma centena de bons artigos de divulgação veiculados em periódicos de informação geral brasileiros.
Certamente, as dificuldades enfrentadas pelas nossas universidades, que andam correndo o pires à cata de recursos (o mesmo raciocínio vale para os nossos institutos de pesquisa), acabarão por levá‑las a uma autocrítica. Estabelecer parcerias com o setor privado e buscar legitimação junto à sociedade deixarão de ser propostas alternativas para nossas instituições universitárias para se constituírem em estratégias obrigatórias para a sua sobrevivência.
Se a universidade se dispõe (ou é obrigada) a estabelecer novos vínculos com a sociedade, então ela precisa redimensionar o seu perfil comunicacional. Isso implica atribuir nova escala de valores ao trabalho de interação com os seus distintos públicos de interesse e priorizar os relacionamentos. Sem perder os seus objetivos básicos ‑ pesquisa, ensino e extensão ‑ precisa capacitar‑se para exercê‑los plenamente a partir de uma nova proposta de comunicação, que privilegie a transparência, o diálogo, o compartilhar do saber e a responsabilidade social.
Num mundo globalizado, é indispensável que a universidade brasileira estabeleça novas fronteiras para o seu relacionamento com a sociedade, descartando, sobretudo, a sua posição isolacionista. A academia não pode restringir seus esforços de comunicação às publicações científicas (ainda que prioritárias e fundamentais), sob pena de perder legitimidade.
O mundo existe além dos campi e a universidade deve participar dele. A universidade deve rever sua postura de encastelamento e comunicar mais e melhor. Para tanto, ela deverá capacitar‑se, despir‑se de preconceitos e abrir-se para um debate franco com a sociedade. O futuro não poupará as organizações, entre as quais as universidades, que, com prepotência, derem as costas às demandas sociais legítimas e que não se dispuserem ao trabalho de resgatar a cidadania. Para a universidade brasileira, isso significa buscar a comunhão de interesses, colocando a sua competência a serviço da maioria.
Desenvolver uma cultura de comunicação que estimule o comprometimento e a responsabilidade, que extrapole o mundo dos sábios e se debruce sobre as aspirações e as expectativas do cidadão comum. A universidade tem um papel importante e precisa estar disposta e capacitada para desempenhá-lo. Se ela não ousar descer do pedestal em que se encontra, poderá perder o apoio da sociedade e consequentemente dos governos e do mercado. A universidade não pode ignorar que, seja ela pública ou privada, é a sociedade e por extensão os cidadãos com os seus impostos que a financiam. E quem paga a conta tem o direito de exigir a devida contrapartida.
Em tempo: algumas luzes estão começando a brilhar no horizonte e algumas instituições universitárias parecem ter acordado para a importância estratégica da comunicação. A USP faz, nesse momento, um esforço enorme para mudar o perfil de sua comunicação e, a exemplo do que acontece em outras áreas, poderá se constituir em referência. É preciso acreditar.
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Sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Os desafios do Jornalismo Científico |
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A divulgação cientifica, e o Jornalismo Cientifico em particular, têm pela frente novos desafios, especialmente tendo em vista a emergência de novos cenários, como a ação mais agressiva dos lobbies empresariais, a consolidação dos processos de comunicação nos ambientes virtuais e inclusive a conjugação de inúmeros fatores que condicionam a produção e a circulação de informações pela mídia.
A literatura na área da divulgação científica tem privilegiado, quase exclusivamente, dois grandes temas: a decodificação do discurso científico (tornar a ciência acessível para o universo comum dos mortais) e o embate nem sempre tranqüilo entre pesquisadores/cientistas e jornalistas. Não que esses dois temas não incluam aspectos relevantes do processo de divulgação, mas é preciso, com urgência, incorporar ao estudo, à pesquisa e ao debate outras questões não menos fundamentais, como a pressão de interesses comerciais e políticos, a capacitação dos divulgadores e jornalistas, a aceleração da informação etc.
A visão moderna que contempla a ciência e a tecnologia como mercadorias tende a desmistificar a perspectiva secular que as associava ao interesse público, como se estivessem a serviço da humanidade, identificadas com a noção de progresso. Hoje, esta leitura deve ser refeita porque, cada vez mais, empresas e governos se apropriam da ciência e da tecnologia com o objetivo de garantir privilégios e exclusividades (elas, portanto, não circulam livremente como se postulava), de subjugar os adversários e de fazer prevalecer os seus interesses.
Os exemplos se contam às dezenas, mas é fácil identificar essa perspectiva predadora e monopolista da ciência e da tecnologia “a serviço de” em segmentos como a indústria bélica, da saúde, agroquímica e de biotecnologia, entre muitos outros. A contrapartida do chamado progresso técnico é, quase sempre, o monopólio ( como o das sementes por empresas transgênicas!), a exclusão (há países que podem e os que não podem desenvolver tecnologia) e a espionagem (o jogo para vencer a concorrência é pesado mesmo e não descarta o suborno, a espionagem, o assassinato etc).
O controle da ciência e da tecnologia se estende também ao processo de circulação de informações, com denúncias recorrentes de assédio e manipulação de importantes publicações científicas por empresas privadas, quase sempre com a cumplicidade de “cientistas/pesquisadores” sem escrúpulos.
Esta é uma questão que a comunidade científica, muitas vezes, não gosta de debater e a imprensa de investigar, certamente por inúmeras razões. Mas a relação promíscua entre pessoas que se proclamam “da ciência” e os grandes interesses privados tem se aprofundado e, volta e meia, estão elas na mídia, nos congressos científicos e até no Parlamento fazendo lobby para corporações globais.
A imprensa - e os jornalistas em particular – bastante desatentos, não conseguem enxergar além da notícia e tomam informações contidas em releases gerados por entidades a serviço de interesses poderosos como verdadeiras. A imprensa não consegue perceber que as empresas que produzem sementes engenheiradas são as mesmas que dominam o mercado dos agrotóxicos (veneno e não remédio de planta!), embora, em seu discurso, tentem propor um antagonismo irreal. Nem se dá conta de que há uma fonte recorrente (a Céleres) na divulgação das vantagens dos transgênicos e que ela está umbilicalmente comprometida com as fabricantes de biotecnologia e não deveria ser assumida como fonte independente (muito longe disso) nessa área.
A ação da Big Pharma, conjunto dos principais laboratórios farmacêuticos do mundo, também não tem sido percebida pela mídia, seduzida, geralmente, por notícias sobre medicamentos milagrosos, enquanto, por debaixo do tapete, as corporações (você lá leu A corporação, de Joel Bakan, recém lançado no Brasil, com o sugestivo subtítulo A busca patológica por lucro e poder?) inventam doenças, boicotam os genéricos, estendem patentes exauridas, quando não utilizam cidadãos em todo mundo como cobaias ( você assistiu ao filme O jardineiro fiel? ou leu o livro de Marcia Angell, A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos?). Você pode não ter se dado conta mas os grandes laboratórios investem mais, muito mais em marketing do que em pesquisa em desenvolvimento e , particularmente nos países ricos, são grandes financiadores de campanhas eleitorais.
Enfim, “não existe almoço grátis” nessa área e muitas fontes tidas como de prestígio, independentes, são apenas bocas alugadas, recebem soldo de empresas, disfarçado de consultorias, palestras, quando não são mesmo seus funcionários de carreira.
A divulgação científica e o jornalismo científico precisam estar mais politizados, incorporando outras vertentes além da meramente técnica (na verdade, pretensamente técnica) para que não sejam utilizados como espaços de consolidação de monopólios e cartéis de toda ordem.
Felizmente, em nosso País, encontramos um número enorme de cientistas/pesquisadores efetivamente comprometidos com a aventura da ciência, com a democratização do conhecimento e que não se prestam a este jogo sujo que privilegia o interesse financeiro em detrimento da cidadania.
A ciência e a tecnologia devem estar a serviço da coletividade e, por isso, é vital a implementação de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento científico e tecnológico (e também a inovação) e atentas à estratégia das ações monopolistas. É preciso mesmo quebrar as patentes dos laboratórios, quando está em jogo a saúde dos brasileiros; é preciso investir contra a indústria do tabaco, das armas, do fast-food, das bebidas, a ganância das montadoras, reduzir o avanço insustentável dos agrotóxicos e o monopólio dos adubos e fertilizantes. É essencial banir de vez o amianto, enquadrar as empresas de celulares e computadores (as maiores produtoras de lixo eletrônico), exigir a rotulagem dos transgênicos (se não fazem mal por que as empresas insistem em não rotular?) e olhar com atenção para o discurso falso das mineradoras e das empresas de papel e celulose.
A divulgação científica e o jornalismo científico precisam estar livres destas pressões insuportáveis de governos e empresas. A Academia, os Sindicatos, a sociedade civil devem estar empenhados no processo de alfabetização científica e não atuarem como legitimadores de processos espúrios de manipulação, de domínio em nome de um progresso técnico que desumaniza e subjuga os cidadãos.
A formação dos jornalistas e divulgadores científicos exige, portanto, mais do que uma competência técnica para produzir notícias, reportagens ou newsletters digitais, mas deve propiciar uma visão abrangente, precisa do que ocorre nos bastidores da produção e da divulgação da ciência e da tecnologia.
Acreditar em empresas monopolistas, em autoridades ou parlamentares financiados pelos interesses comerciais e em empresas e empresários da comunicação que enxergam a ciência e a tecnologia como mais um elemento lucrativo do balcão de negócios em que se transformaram alguns veículos (jornais, revistas, emissoras de rádio e TV, portais etc) brasileiros é apostar contra a inteligência, a qualificação da informação, e mesmo a soberania nacional.
A divulgação científica e o jornalismo científico precisam, urgentemente, incorporar uma perspectiva crítica, sintonizando-se, de vez, com os interesses dos cidadãos e do país. O seu grande desafio é enxergar além da notícia, buscando identificar empresas e grupos que continuam usando a mídia para consolidar os seus privilégios. Para isso, é preciso mais do que competência técnica, é preciso vontade política e coragem para impedir que o discurso insustentável e nefasto de organizações monopolistas prevaleça em detrimento de uma comunicação democrática e libertadora.
Sem essa postura e essa disposição cívica, continuaremos acreditando que os transgênicos vão matar a fome do mundo e que são ambientalmente saudáveis, que os agrotóxicos são remédio e não veneno, que o amianto é inócuo, que os setores de mineração, de papel e celulose, de tabaco e financeiro são sustentáveis (haja banco do planeta!) e que as farmacêuticas têm como objetivo maior cuidar da nossa saúde.
Está na hora de abrir os olhos. A postura transgênica na comunicação científica, que apenas legitima as monoculturas da mente, precisa ser definitivamente excluída.
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Sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Não adianta jogar a crise pra debaixo do tapete! |
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As teorias sobre crise empresarial costumam respaldar-se em vários pressupostos. Um deles é de que a crise é democrática e não distingue empresas por seu porte, ou seja, todas estão sujeitas a ela, grandes, pequenas ou enormes. Mais ainda: quanto maior a empresa, maior tende a ser a sua crise. Um segundo pressuposto é que a crise em geral não explode de uma vez, mas se desenvolve gradativamente, o que significa que, em boa parte dos casos, é possível evitá-la, preveni-la e, no mínimo, reduzir o seu impacto. Um terceiro pressuposto , muito caro aos comunicadores, é que um bom gerenciamento das crises atenua os efeitos que elas podem causar na reputação das empresas ou organizações.
Isto posto fica mais fácil entender porque algumas empresas e marcas de prestígio andam apanhando que nem loucas neste momento e também porque, ao que parece, não conseguirão se safar da crise atual sem grandes seqüelas. As operadoras de celular (TIM e outras menos votadas) andaram levando um puxão de orelhas (merecido) da Anatel pela qualidade precária de seus serviços, os planos de saúde foram proibidos de vender novos planos porque não têm estrutura para cumprir o que prometem e assim por diante.
As crises existem, sempre existiram, mas não apanham as organizações do mesmo jeito porque há formas e formas de combater a crise. A melhor delas é exatamente ter consciência dos riscos, disposição, planejamento e competência para enfrentá-los e uma comunicação estratégica para dar conta de seus impactos sobre a imagem e a reputação. Transparência, profissionalismo, ética são palavras-chave no combate a crise.
Não dá para atenuar os efeitos da crise fazendo o que muitas empresas fazem: tentam tapar o sol com a peneira, jogam a sujeira para debaixo do tapete, praticam um discurso descolado da realidade e saem por aí se proclamando sustentáveis, socialmente responsáveis, quando, no fundo, dão as costas para a ética, a transparência e os seus stakeholders.
As organizações e suas marcas sempre são penalizadas quando ocorrem as crises, mesmo quando em princípio elas não são culpadas por elas. Pesquisas evidenciam que consumidores estão deixando de lado, nesta hora em que o bolso anda cheio de escorpiões, as marcas líderes em alguns setores recolhendo-se em marcas genéricas ou de menor prestígio. É a crise, cara e aí não tem jeito.
O importante, quando se examinam casos de crise, é verificar em que medida a arrogância, a displicência e a falta de compostura de algumas organizações contribuíram para que elas aparecessem ou ainda para que as labaredas aumentassem de tamanho. Não foi esse o caso da Volks com o Fox e seu banco traseiro repleto de armadilhas? Não foi esse o caso da Merck com o Vioxx que matou muita gente? Não foi esse o caso do Renan Calheiros (pessoas também enfrentam crises!) que insistia na história dos bois vendidos a preço de ouro? Não é esse o caso da TAM e da Gol, com seus repetidos apagões, e mentiras sucessivas com o objetivo de esconder a sua incompetência?
Se é verdade que não se pode brincar com as crises, mais verdade ainda é que é preciso estar atento, preparado para enfrentá-las.
Há empresas que imaginam que crises, sobretudo as de imagem, podem ser enfrentadas com uma agência batuta, daquelas que salvam a pele de todo mundo, e que praticam a tese equivocada e não ética de que “pode sujar o que quiser porque estamos aqui para fazer a limpeza”, o que agrada empresários incompetentes e corruptos que não têm compromisso algum com a responsabilidade social, a gestão democrática e a comunicação transparente.
Esta é a proposta do marketing verde, aquele discurso cínico de sustentabilidade que costuma caracterizar empresas predadoras, assessoradas por consultores espertos e agências louquinhas para levar a grana dos que não conseguem conciliar teoria e prática. Pois não é que até a indústria tabagista e a de agrotóxicos (produtoras de drogas e venenos, respectivamente) andam se proclamando socialmente responsáveis, sustentáveis ou coisa que o valha, com a complacência hipócrita de agências de propaganda, assessorias de RP e de imprensa? Uma contribui para matar com os seus produtos os clientes que acreditam nela e outra emporcalha solo, água, ar etc sem dó. Puxa, pode ser até que agrotóxico aumente a produtividade (se é só que isso interessa neste mundo) mas que é sustentável pera lá, não dá para engolir.
Os conceitos estão fora do lugar no mundo empresarial e por este motivo as crises andam pipocando a todo momento. A insistência em tapar o sol com a peneira não tem surtido efeito e neste mundo conectado, que vê seu futuro ameaçado pela ação de empresas e governos predadores, por falta de consciência cívica, e por um modelo que estimula o consumo a qualquer custo com o argumento de que aumenta o emprego, esta conversa não convence mais.
As crises têm a vantagem de expor as mazelas de muitas organizações (que demitem sem dó apesar do discurso da “gestão de pessoas de excelência” e de prêmios de entidades de Recursos Humanos), de trazer à tona posturas não éticas
As crises valem para alguma coisa, não há dúvida. Empresas que não são transparentes, que são incompetentes, que privilegiam o autoritarismo e a irresponsabilidade social costumam acertar as contas com a sociedade e o mercado nessa hora. Elas merecem estar nas capas dos jornais, nas chamadas dos grandes telejornais, na boca do povo.
As crises servem para diferenciar empresas boas de empresas vilãs. E não adianta imaginar que basta chamar agências de comunicação ou de RP, assessorias de imprensa ou consultorias nessa hora porque os milagres não existem. As agências e assessorias só conseguem, quando o cliente é ruim, apenas prorrogar o sofrimento. É como advogado que defende criminosos confessos: no máximo conseguem reduzir a pena, mas nunca tirá-los das grades.
A natureza é implacável no universo empresarial: quando a chuva chega forte (crises mal resolvidas são verdadeiras tempestades), a lama acaba escorrendo por debaixo do tapete. Não há limpeza de imagem que resolva o problema. E a PF costuma estar esperando no saguão de entrada e a mídia não larga do pé. Não será melhor, mais lucrativo (estou utilizando a palavra-chave para muitos empresários) andar sempre na linha?
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Quarta-feira, 10 de outubro de 2012
O marketing da saúde deixa a mídia e os pacientes doentes |
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Alguém já disse, com muita propriedade, que a imprensa brasileira é hipocondríaca. Certamente, não é difícil encontrar bons argumentos para justificar esta afirmativa.
Em primeiro lugar, é absolutamente verdade que a mídia privilegia sempre, em sua cobertura, a doença, relegando a saúde a um plano inferior. Na prática, o que interessa (o que aumenta a audiência, dá Ibope ou vende jornais e revistas) é revelar as novas moléstias que assolam o mundo ou recuperar as antigas (a tuberculose e a hanseníase estão entre as preferidas). Tudo com o objetivo de chamar a atenção das pessoas para os perigos que rondam por aí. Para tanto, vale o alarmismo, o exagero , as manchetes em letras garrafais ou especiais de televisão.
O aviso chega pelo jornal ou TV: cuidado, você vai ficar impotente, entrará em depressão e poderá ser a próxima vítima da hepatite C. Desconfortos normais (os velhos tendem a ficar cansados ou a enxergar menos, quem trabalha muito tem mesmo estresse e todo mundo algum dia terá uma dor de cabeça) são vistos como sintomas de terríveis patologias e, o que é pior, a impressão que fica é que a culpa é sempre de quem está doente. Se você tivesse ido ao médico, se tivesse tomado um remedinho...
Em segundo lugar, não é raro perceber que a imprensa tem uma fórmula pronta (absolutamente inadequada) para resolver os problemas de saúde: a prática da medicalização e o uso de equipamentos sofisticados para diagnóstico e tratamento.
Para crianças hiperativas ou para perda do namorado, Prozac; para aumentar o poder de fogo dos “machos”: Viagra. De quebra, um analgésico e um antibiótico (se possível, de primeira geração) para afastar dores de cabeça e possíveis infecções. Chega-se ao cúmulo de incentivar o uso de medicamentos para evitar doenças potenciais e aí entra toda a propaganda das vitaminas e complementos minerais. A idéia é tomar remédio antes, para não ter que tomar remédio depois. Baseada nesta perspectiva equivocada, os meios de comunicação também fazem a apologia da tecnologia médica, como se a cura estivesse associada, necessariamente, à tomografia computadorizada ou aos exames laboratoriais.
Em terceiro lugar, assistimos a uma ação agressiva de profissionais de saúde, que buscam a todo custo promover-se na mídia, com o objetivo explícito de angariar novos pacientes. Neste sentido, são competentes os programas dedicados à mulher e que povoam a televisão brasileira, notadamente os exibidos nos períodos matutino e vespertino, com entrevistas cordiais de médicos e terapeutas, ávidos por divulgarem novos produtos e novos processos. Complementarmente, apresentadoras prestigiadas introduzem ou incluem em seus programas anúncios de remédios ou equipamentos milagrosos, como as cintas eletrônicas que reduzem as gordurinhas da barriga, as barbatanas de tubarão e até as famosas dietas da USP (que nunca soube disso!).
Finalmente, para completar este cenário desfavorável, a imprensa destaca os novos gurus, responsáveis por terapias alternativas e que, apoiados em teorias estapafúrdias, atraem milhares de incautos aos seus consultórios.
Evidentemente, é necessário chamar a atenção para as doenças, deve-se incentivar o acompanhamento médico e não é inteligente descartar novas possibilidades de tratamento (estão aí a acupuntura e a homeopatia, antes discriminadas, para reforçar a tese de que não é razoável fechar os olhos às novas possibilidades). Mas, num país pobre, com uma cultura que incentiva a auto-medicação, é fundamental promover os benefícios da prevenção e das soluções simples.
Socialmente, é injusto imaginar e divulgar que apenas os recursos sofisticados permitem resolver os problemas da saúde no Brasil. O número de doenças provocadas pela falta de higiene e saneamento (que tal cuidarmos da qualidade da água que bebemos e damos aos nossos filhos?), pela conservação indevida dos alimentos, pela armazenagem imprópria e manuseio sem proteção de produtos tóxicos (as vítimas dos agrotóxicos neste país de vocação agrícola se contam aos milhares) , pela alimentação inadequada (quantas crianças obesas e, ao mesmo tempo, desnutridas) indicam que há muito a se fazer. Sobretudo, apontam para um papel fundamental dos meios de comunicação: a educação para a saúde.
A imprensa precisa, definitivamente rever os seus conceitos. Está na hora de apostar na saúde, na prevenção, no esclarecimento. É preciso, de uma vez por todas, inserir a responsabilidade social no marketing e na divulgação da saúde em nosso País.
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