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Terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Influenza, influência e falta de ética |
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A polêmica está criada e ela se justifica plenamente: a pandemia de gripe suína se transformou num negócio espetacular para a indústria farmacêutica; há, em muitos países, doses de vacina em estoque saindo pelo ladrão e a mídia (em todo o mundo) fez o jogo do bandido.
Passados alguns meses do pânico que se instalou planetariamente (e também por aqui) sobre a gripe suína, fica mais fácil perceber que autoridades, jornalistas, laboratórios e até organizações tidas como sérias (a OMS está sob suspeita há um tempão) acabaram se enredando num jogo que, mais do que contemplar a saúde (ou a doença, que tem sido o foco da mídia), serviu para aumentar o lucro da poderosa indústria da saúde que, repetidamente, atenta contra o bolso e a ética.
Quem já teve a curiosidade de ler o excelente livro de Marcia Angel sobre a indústria farmacêutica (conhecida pela alcunha de Big Pharma), aqui publicado pela Editora Record, sabe que o seu negócio, como de toda indústria predadora, é prioritariamente o lucro e que, apesar do discurso, alguns de seus representantes farão qualquer coisa para aumentá-lo.
Ninguém deve ignorar que parcela considerável dos investimentos da indústria da saúde vai para a propaganda/marketing e que o lobby é formidável sobre governos, parlamentares e sobretudo pesquisadores e profissionais de saúde, muitos, infelizmente, a seu serviço. Há relatos sobre pesquisadores que chegaram a assinar (por grana, obviamente) artigos que não eram de sua autoria (mas de laboratórios) para burlar a vigilância de revistas médicas de prestígio e o terreno nesta área é absolutamente contaminado, com tráfico de influência, ameaças, pressões de toda ordem, para fazer valer os interesses formidáveis de quem fabrica medicamentos (certo, há exceções, mas elas apenas confirmam a regra).
Artigos e reportagens recentes indicam a estratégia utilizada durante a anunciada pandemia de gripe suína (ninguém está dizendo que a doença era brincadeira) foi efetivamente gerar desinformação, estimular rapidamente a compra de vacinas por governos e até influir no uso inadequado de doses excessivas sem eficácia comprovada (mas que aumentaram em muito o lucro dos fornecedores de remédios).
A este respeito, é ilustrativo o artigo do secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, dr. Reinaldo Guimarães, publicado recentemente no Valor Econômico sob o título "O grande negócio da pandemia de influenza" (15 a 17/01/2010, p. A10). Nele, o especialista demonstra a relação estreita entre os laboratórios e o mundo da biotecnologia e, com isso, a aproximação/apropriação da produção de vacinas.
Nele, também condena a imprensa mundial pela sua cobertura sensacionalista, com influência decisiva sobre os governos que, por isso aceitaram preços nada favoráveis para compra em massa. Diz ele: "A cobertura midiática e a emergência objetiva estabeleceram um quadro de "pegar ou largar" que foi decisivo para uma fixação de preços difícil de ser justificada em termos de custos reais. Apenas para exemplicar, em média, o preço da dose das vacinas pandêmicas (todas as procedências) é o dobro do que tem sido pago pela dose da vacina sazonal. Difícil de explicar se considerarmos que a pandêmica possui apenas um antígeno, as sazonais possuem três e a tecnologia é a mesma, essencialmente."
A OMS, por estar à frente desta estratégia e incentivar o uso da vacina, está sendo investigada e já se dispôs a rever regras de pandemia. Reportagem publicada pelo Estadão e de autoria de Jamil Chade, correspondente em Genebra, sinaliza para o encalhe brutal de vacinas compradas às pressas e para conflitos de interesses. Por exemplo, um jornal escandinavo acabou descobrindo que um membro do Grupo Estratégico de Especialistas em Imunização (Sage), o finlandês Juhani Eskola, recebeu em seu Instituto mais de 9 milhões de dólares em financiamento da GlaxoSmithKline, uma das empresas que fabricam a vacina contra a gripe. Outro especialista, o holandês Albert Osterhaus, também está sendo acusado de relação com a indústria, já que recebeu bolsas , financiamento e contribuições da GSK, Sanofi, Novartis etc. Enfim, tem gato na tuba, como se costuma dizer por aqui.
Neste momento, na nossa terrinha, o governo está desencadeando uma batalha imensa para impedir que a Big Pharma consiga estender a patente de alguns medicamentos, estratégia bastante conhecida para impedir que apareçam concorrentes, inclusive genéricos, e que, com isso, possam continuar auferindo lucros escandalosos. Remédios de uso contínuo e voltados para pessoas que podem (???) pagar são absurdamente caros por aqui. Entre os medicamentos que estão inseridos no embate, destacam-se o Viagra, o Plavix, o Lípitor, o Diovan , o Zyprexa, ou seja líderes ou que estão entre os mais vendidos no Brasil para suas indicações.
Temos denunciado, assim como outros colegas independentes, a ação nefasta da indústria da saúde (você assistiu ao filme O jardineiro fiel?) e é de se esperar que mais colegas jornalistas abram o olho com informações aparentemente técnico-científicas que se originam de fontes também aparentemente insuspeitas.
Exemplo de bom jornalismo pode ser visto na reportagem de Milagros Pérez Oliva, no jornal El País onde um laboratório tentou, com apoio de representantes da comunidade científica, entidades e profissionais de saúde, enganar a imprensa, para divulgar um medicamento aclamado como inovador e que não merecia este rótulo.
Enfim, olho vivo com a indústria da saúde porque ela está, com as exceções de praxe, de olho apenas no seu bolso, pouco se importando para a nossa qualidade de vida. Os exemplos de afronta à ética, à cidadania, se contam aos milhares em todo o mundo e volta e meia um remédio é recolhido pelos seus efeitos nocivos, geralmente muito depois de ter dado lucros bilionários para os laboratórios fabricantes.
Nada de publicar release de laboratório, nada de fazer o jogo da indústria da saúde, nada de acreditar que os congressos ou eventos dessa área, patrocinados pela indústria farmacêutica, são isentos. Repetindo mais um ditado: por fora, bela viola e , por dentro, pão bolorento.
Em tempo: os representantes sérios da indústria farmacêutica certamente lerão este artigo sem colocar a carapuça. Já os que têm rabo preso, espero que fiquem mesmo incomodados com o alerta. Desconfiar sempre, gente. Não existe almoço grátis.
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Domingo, 3 de janeiro de 2010
Onde estão os líderes? |
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Se há uma coisa em falta no mercado, são líderes de verdade e é fácil perceber isso. Basta analisar a cena política para confirmar a tese de que a renovação não vem ocorrendo e que ainda estamos reféns de velhos caciques, parlamentares com uma visão ultrapassada e que cultivam vícios inomináveis. Mas o problema não se localiza apenas no mundo da política, mas também nas organizações públicas e privadas, onde, com raras exceções, impera a mediocridade ou emergem dirigentes mais preocupados com os interesses empresariais (ou pessoais, sobretudo comum na esfera pública) do que com o interesse público.
A observação não é apenas nossa, não é apenas fruto de uma avaliação particular, mas está respaldada em recente pesquisa da Empreenda, uma consultoria empresarial, em parceria com a HSM, com forte atuação na área da educação executiva. Segundo César Souza, presidente da Empreenda, em reportagem publicada pelo Estadão no dia 24 de dezembro último, “as empresas não vão conseguir executar o que planejam porque não têm gente”.
Já estamos carecas de saber que um dos gargalos maiores para o crescimento brasileiro se situa na nossa educação deficiente, na precariedade do nosso ensino formal, que cada vez mais privilegia a quantidade em detrimento da qualidade, entregando para o mercado e para a sociedade profissionais sem a competência adequada para promover nossa alavancagem em direção ao desenvolvimento. Temos universidades e cursos demais, mas o nível permanece (ressalvadas as situações de praxe) no fundo do poço, com a complacência e a omissão das autoridades e a ganância de boa parte dos nossos empresários da educação.
Dados recentes evidenciam a carência de profissionais especializados (engenheiros, técnicos etc) e particularmente as empresas e o Governo andam de cabeça quente por causa desta situação. Nada indica que o cenário possa mudar a curto e médio prazos e não há luz no fim do túnel.
Segundo a pesquisa Empreenda/HSM, a escassez de líderes não vai permitir que as estratégias definidas em direção ao desenvolvimento sejam cumpridas e, portanto, o futuro está mais do que ameaçado. O Brasil pode não crescer como prevê ou pelo menos alguns setores permanecerão não competitivos, perdendo o bonde da história.
Mas por que acontece isso? Por vários motivos, mas é possível, de imediato, apontar 2 deles: a) formação inadequada dos profissionais; b) a cultura das organizações que advoga uma gestão de pessoas absolutamente equivocada.
A formação dos profissionais não está comprometida apenas porque o ensino é deficiente, mas também pelo perfil dos nossos cursos que mais parecem de adestramento do que de desenvolvimento pessoal e profissional. As nossas escolas, as nossas universidades, por uma visão pragmática e pouco sintonizada com a era do conhecimento e da inovação, insistem em repetir velhas fórmulas, contemplando uma proposta pedagógica que apenas se limita a “ensinar o que já se conhece”. Não estamos estimulando a descoberta, estamos relegando a reflexão e o debate a um segundo plano. Os professores (mesmo e principalmente os universitários pela responsabilidade que deveriam ter na preparação dos alunos para esta mediação com o mercado e a sociedade) parecem mesmo preferir estudantes que os imitam, que não os questionam, eternizando essa república de doutores que ainda mantêm resquícios daquela educação bancária, autoritária, acidamente criticamente por Paulo Freire, este sim um educador de mão cheia, difícil de se encontrar nos dias atuais.
As universidades chegam a proclamar à época do vestibular a sua relação com o mercado, mas contemplam um cenário ultrapassado, dinossáurico, que ainda vê os futuros profissionais como mão-de-obra, treinados para exercer funções e executar atividades meramente reprodutivas.
Neste sentido, acabam conseguindo formar funcionários para seguir ordens, esmeram-se na formação de súditos do rei, de meros imitadores. A capacitação de líderes acaba sendo esquecida e por isso o mercado se ressente de pessoas com espírito de iniciativa, criativos, que não tenham receio de ousar.
A cultura das nossas organizações – e por extensão o processo de gestão – privilegia a visão conservadora, que vê as chefias como elementos de confiança e não como líderes autênticos, capazes de mobilizar as mentes, de incentivar a participação e que sejam mais humanos e mais justos.
A última crise tornou insuportável o assédio moral nas empresas, com chefias incompetentes pressionando os seus subordinados para a obtenção de resultados a qualquer custo, verdadeiros capatazes que brandem os chicotes e são avessos ao diálogo.
Nossos empresários e executivos (salvemos as exceções) ainda preferem pessoas que andam de cabeça baixa, premiam os que dizem amém, comungam da velha tese de quem pode manda e quem tem juízo obedece, recompensam o tapinha nas costas e o elogio fácil. Demitem sem dó (como fez a Embraer, Vale, instituições bancárias etc) quando a crise bate à porta e alguns infelizmente têm a desfaçatez de praticar o trabalho escravo em pleno século XXI.
A construção de uma nação forte, efetivamente sustentável, passa pela formação de líderes autênticos, afinados com os novos tempos: democráticos, socialmente responsáveis (eta conceito avacalhado pela elite empresarial brasileira!), criativos, que ousam inovar e correr riscos, mas eles são cada vez mais raros.
Na área da comunicação empresarial, onde atuamos, é triste perceber gestores que tentam apenas adivinhar o que os seus chefes pensam, que afrontam os seus princípios e valores (e também os da sociedade) para preservarem seus cargos e salários e que se empenham mais em conquistar prêmios e troféus do que em efetivamente contribuir para uma sociedade mais justa, para a implantação de um clima organizacional saudável.
Em nenhum outro momento, a comunicação interna nas nossas organizações esteve tão deteriorada, tão pouco democrática, com a auto-estima dos chamados “colaboradores” (outra hipocrisia do discurso empresarial) resvalando o rés do chão.
Temos chefias demais mas estão faltando os líderes. Com competência, com coragem, com criatividade, com espírito empreendedor, com visão crítica do mundo dos negócios.
Se não dermos um jeito nisso agora, nosso futuro estará definitivamente comprometido. Precisamos de gestores de pessoas e não de chefes do pessoal, de profissionais que confundem autoridade (legitimamente conquistada) com autoritarismo e de dirigentes que aplaudem os puxa-sacos, ainda que incompetentes, porque não são capazes de tolerar a divergência, a crítica, a diversidade de idéias e opiniões.
As empresas do futuro exigem uma nova postura da educação e no mundo do trabalho. Empresários, professores e chefias que buscam apenas formar e adestrar seguidores jamais construirão o país que desejamos. É inconcebível formar profissionais que saibam apenas fazer as coisas que temos hoje: precisamos de líderes que saibam inventar aquelas de que precisaremos amanhã.
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Terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Mídias regionais e o preconceito empresarial |
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A grande imprensa tem insistido, com alguma freqüência, na tese de que o Governo, por absoluto interesse eleitoreiro, decidiu privilegiar os veículos regionais (especialmente emissoras de rádio e jornais), canalizando para eles recursos expresivos da propaganda oficial.
Há meias verdades nestas afirmações mas sobretudo elas trazem implícitos preconceitos e grandes interesses comerciais.
De há muito, setores mais esclarecidos da sociedade (particularmente aqueles que defendem com autenticidade uma maior democracia na comunicação brasileira), têm chamado a atenção para o fato de que grandes grupos, verdadeiros monopólios particularmente no rádio e na televisão, abocanham, por intermédio de lobbies legítimos ou excusos, recursos oficiais em detrimento de mídias locais ou regionais, eternizando o seu domínio.
Países ditos democráticos não permitem que poucos grupos privados, como no Brasil, detenham tal poder de fogo junto à opinião pública, muitas vezes manipulando-a com o objetivo de favorecer os seus interesses. Mas por aqui a relação espúria entre grupos políticos e grupos econômicos fortalece esta apropriação indevida, com a cumplicidade de dirigentes nas esferas municipal, estadual e federal.
Os caciques políticos (que felizmente vão se extinguindo, ainda que mais lentamente do que gostaríamos) mantêm rígido e nefasto controle sobre emissoras de rádio e TV, concessões oficiais quase sempre destinadas a privilegiar amigos, familiares e aliados em disputas políticas.
Grandes grupos privados acabam dominando a comunicação brasileira, liderando os rankings de audiência e usam desta situação para justificar o acesso à maior parte da verba oficial, que, num círculo vicioso, contribui para manter o status quo.
É neste contexto que deve ser analisada, em princípio, a crítica recorrente dos grandes empresários da comunicação à política atual do Governo Lula que tem distribuído mais amplamente as verbas da propaganda oficial, fugindo da armadilha de focar unicamente nos líderes de audiência. Os eternos privilegiados receiam perder a hegemonia e fazem o possível e o impossível para continuarem "mamando nestas tetas generosas". Afinal de contas, o Governo (ou os Governos) é, de longe, o maior anunciante do País.
Pode-se argumentar, como fazem os defensores dos grandes grupos de mídia, que o Governo age desta forma porque as eleições estão surgindo no horizonte e ele deseja capitalizar a boa vontade dos donos de jornais e emissoras de rádio locais. Governos costumam mesmo ter gestos de solidariedade em situações especiais e, como diz o ditado, "não tem almoço grátis".
Mas a situação não é tão tranqüila assim, como alguém deve imaginar, mesmo porque esta tese pressupõe que a mídia regional seja corrupta, que irá vender a sua independência por uns trocadinhos de propaganda oficial. Ledo engano e preconceito enorme.
A história da imprensa demonstra que os deslizes éticos mais comuns têm sido cometidos por poderosos empresários privados, que negociam sua independência com apadrinhados políticos e grupos econômicos, e que fazem abertamente o jogo da elite em detrimento dos menos favorecidos. A história recente evidencia que eles também demonizam os movimentos sociais, são adversários ferrenhos dos grupos organizados e das entidades que representam os trabalhadores e que, muitas vezes, usam dos seus poderes e privilégios para chantagear os dirigentes de plantão para continuarem merecendo as suas benesses.
A comunicação brasileira precisa atingir um novo patamar e este cenário obrigatoriamente inclui o fortalecimento das mídias regionais, a democratização dos meios de comunicação, com a ruptura completa desta política de concessão que entrega emissoras de rádio e televisão para os súditos do rei.
É fundamental fortalecer as rádios e TVs comunitárias, dar voz às organizações do Terceiro Setor, consolidar as entidades de defesa dos direitos humanos e dos consumidores e permitir que os cidadãos livremente possam expressar a sua opinião.
Certamente isso incomoda aqueles que dominam a comunicação brasileira e que pressionam para que nada se modifique, buscando preservar verdadeiros cartórios informacionais que se transferem de pai para filho ao longo do tempo.
A construção da cidadania, a valorização do debate democrático, o esforço de inclusão social e por maior participação dos cidadãos nos processos de tomada de decisões exigem um novo modelo.
Ele deve estar apoiado num conceito de liberdade de expressão distinto daquele que é defendido pelos caciques da mídia, por determinadas agências de propaganda e anunciantes, que querem apenas manter os seus lucros ou comissões, ainda que à custa da saúde da população e do assédio inaceitável junto às nossas crianças. Este é o caso da indústria de alimentos (particularmente os não saudáveis, o fast-food), da indústria de bebidas, tabagista, agroquímica e mesmo da indústria da saúde que continua, cinicamente, incentivando a automedicação.
A Conferência Nacional de Comunicação andou tratando felizmente destes temas e foi sintomático perceber a ausência de entidades privadas que representam os interesses dos grandes grupos que monopolizam a comunicação brasileira. Sob a alegação de que a Conferência pregava a tutela do Estado (ela teve participação expressiva de representantes legítimos da sociedade brasileira, necessariamente não afinados com todas as teses defendidas pelo Governo ou pela Secom), estas entidades não compareceram ao debate, exatamente porque secularmente nunca se propuseram efetivamente a dialogar com a sociedade. Tem o vício irreparável do controle, comum às elites, aos que julgam que brasões e nomes centenários devem estar acima dos cidadãos comuns.
A democracia brasileira saúda a intenção do Governo de repartir melhor os recursos oficiais e de fortalecer as mídias locais e regionais, o que deveria ter sido feito há muito tempo, não fossem a cumplicidade e a omissão de dirigentes seduzidos pela audiência de impérios midiáticos.
Que 2010 assista ao crescimento contínuo dos pequenos e médios jornais e emissoras de rádio brasileiras, que se diluam os monopólios e que o pluralismo prevaleça na comunicação brasileira.
Uma sociedade democrática se constrói com a participação de todos. Uma comunicação democrática exige a convivência harmônica da diversidade de posições e posturas, todas elas comprometidas com o interesse público. Do jeito que está, não pode ficar. Mudanças profundas já
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Terça-feira, 15 de dezembro de 2009
O comunicador empresarial do futuro será diferente |
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A Comunicação Empresarial brasileira atravessa um momento importante de sua já longa trajetória, com a profissionalização das suas estruturas (capacitação dos gestores e refinamento de seus recursos tecnológicos), a inserção gradativa no processo de gestão estratégica e o diálogo necessário entre o mercado e a Academia.
Um olhar ainda que ligeiro para o passado recente evidencia esta evolução, alavancada pelas demandas crescentes, pela competitividade acirrada e pela obrigatoriedade do enfrentamento dos novos desafios.
Mas ainda há um árduo, espinhoso e nem sempre rápido caminho a percorrer e o cenário, visto de maneira abrangente, ainda permanece nublado.
Em primeiro lugar, porque o crescimento acelerado da área não se fez acompanhar de uma formação acadêmica competente e, portanto, excetuados alguns nichos (grandes empresas, agências ou entidades de prestígio), ainda há lacunas imensas e desvios de toda ordem. O número de agências/assessorias se multiplica formidavelmente mas nem sempre com a respectiva qualificação dos seus produtos, processos e serviços. Muito pelo contrário, ainda há um amadorismo latente, equívocos conceituais inaceitáveis e, infelizmente, a adoção de princípios que não condizem com a ética , a transparência, o profissionalismo e a cidadania.
Muitas agências/assessorias abrem mão de determinados valores apenas para conquistar contas e agradar clientes, comprometendo o "ethos" da área que deveria se pautar pelo respeito aos públicos de interesse (particularmente funcionários e consumidores), pelo diálogo, pela interação, pelo respeito à divergência e à liberdade de expressão.
Em segundo lugar, porque a Comunicação Empresarial ainda permanece refém de um perfil tarefeiro, meramente operacional, distante portanto de uma perspectiva que deveria ser estratégica, respaldada em pesquisas e em instrumentos de avaliação. Muitos gestores de comunicação ainda acreditam que a intuição é a melhor arma e assumem uma visão impressionista, descomprometida com o esforço de investigação e de análise. São, em essência, amadores porque não incorporaram recursos e conhecimentos, além de metodologias, para a qualificação do seu trabalho. São notáveis "chutadores", postura que não se afina com a realidade complexa do trabalho em Comunicação Empresarial, ainda que, esporadicamente, alguns chutes possam trazer bons resultados.
Em terceiro lugar, porque há culturas organizacionais que permanecem "dinossáuricas", caracterizadas por gestão de pessoas e processos não democrática, que apostam no assédio moral para estimular a sobrecarga de trabalho, que demitem funcionários ao primeiro sinal de crise, que vêem a imprensa como adversária, que demonizam os movimentos sociais e se sentem pouco confortáveis com a divergência e o questionamento. Estas culturas organizacionais legitimam chefias inseguras, autoritárias e empresários que ainda acreditam que a comunicação tem mais a ver com riscos do que com oportunidades.
Em quarto lugar, porque o corporativismo ainda predomina na Comunicação Empresarial com o embate entre categorias profissionais que deveriam, de há muito, estarem praticando a integração, em vez de insistirem no patrulhamento, no confronto, na troca de farpas. A Comunicação Empresarial é mesmo uma área mestiça em que a participação de diversas competências tem que ser vista como solução e não como problema.
Finalmente, porque falta sobretudo espírito crítico a boa parte dos nossos comunicadores que insistem no auto-elogio, no tom "oba-oba" presente em cases, em palestras nos eventos da área e que dão a vida por um diploma, certificado ou troféu que, pretensamente, lhes confere credibilidade ou reconhecimento profissional. A Comunicação Empresarial vive dos "cases de sucesso" e de premiações de toda ordem, encarados como um fim em si mesmos e que, na maioria das vezes, apenas legitimam mediocridades.
Muitos gestores de comunicação das nossas organizações parecem ter sofrido autêntica "lavagem cerebral" e não conseguem enxergar um palmo à frente do nariz, acreditando piamente que as decisões de seus patrões ou clientes estão corretas, mesmo quando elas ostensivamente afrontam a convivência democrática e se pautam pela manipulação, pela hipocrisia ou cinismo empresarial. Seria, por exemplo, o caso dos que a serviço da indústria tabagista, que mata milhões de pessoas anualmente em todo o mundo - e centenas de milhares no Brasil - continuam tentando convencer a sociedade de que ela é socialmente responsável. Ou os que, defendendo as montadoras, proclamam contínuos chamados de recall como ações de respeito aos consumidores, quando não passam de repetidos casos de incompetência e falta de qualidade de seu sistema de produção. Ou ainda da indústria agroquímica que, mesmo derrubando veneno e emporcalhando solo, água, ar etc, se autointitula de ambientalmente correta.
O comunicador empresarial do futuro deve ter um perfil moderno, em sinergia com as novas demandas e os novos valores, estar afinado com os conceitos que são caros à nossa área, como os de responsabilidade social, sustentabilidade, comunicação integrada, comunicação estratégica etc, ainda trabalhados de maneira hipócrita, mais presentes no discurso do que na prática empresarial. Deve também basear-se em pesquisas para o seu planejamento estratégico, saber desenhar cenários, apoiar-se fundamentalmente nas novas tecnologias e nos recursos disponíveis (banco de dados inteligentes, conhecimento detalhado dos públicos de interesse). Deve contemplar as redes sociais como uma realidade, buscando vê-las como espaços de relacionamento e de interação democrática e não como ambientes que repetem os modelos tradicionais de persuasão e manipulação.
O comunicador empresarial do futuro deve ser ético, transparente, democrático e ser leal com as suas organizações (muitos jogam de todos os lados, tentando aparecer bem na fita e salvar a sua pele), sem afrontar o interesse público.
As escolas de comunicação têm um papel importante a desempenhar , assim como os seus professores, muitos deles com larga atuação no mercado. Eles devem estar comprometidos com esta formação multi e interdisciplinar, com uma visão crítica do mundo do trabalho e dos negócios. A Comunicação Empresarial do futuro não pode apenas servir aos empresários e dirigentes de entidades e funcionar como instrumento de adestramento ou doutrinação.
Quem apostar nesse modelo, que já se mostra esgotado, poderá engrossar, no futuro, a legião dos desempregados modernos. O comunicador empresarial do futuro não precisará apenas de competência técnica, mas de retidão de caráter. Algumas empresas e entidades, como temos visto, não são, definitivamente, o melhor lugar para desenvolver este atributo indispensável aos profissionais do século XXI.
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Sábado, 5 de dezembro de 2009
A nova postura da comunicação em tempo de redes sociais |
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Há bem pouco tempo, as empresas estavam razoavelmente tranqüilas, sobretudo aquelas que sempre se valeram do seu poder econômico para subjugar os adversários e mesmo para cooptar a mídia que, no Brasil, com raras exceções, costuma ser refém de interesses políticos e comerciais.
Na maioria das cidades brasileiras, a imprensa sempre esteve atrelada a alguns grupos, representantes tradicionais do poder político e econômico local (infelizmente, o caciquismo ainda não foi totalmente derrotado, muito pelo contrário). Nestas cidades, a impunidade, a falta de vigilância imperavam sem dó nem piedade. Particularmente no caso de emissoras de rádio e TV, o controle esteve e permanece em mãos destes grupos hegemônicos porque concessão do Estado, que sempre favoreceu os seus amigos e aliados.
Mas esta zona de conforto pouco a pouco vai se deteriorando, com a multiplicação de veículos jornalísticos e especialmente com a chegada da internet (o número de sites e portais cresceu vertiginosamente) e mais recentemente com a emergência do cidadão enquanto protagonista e produtor de conteúdos.
Os blogs, o twitter, as redes sociais em geral, viraram o mundo das organizações de cabeça para baixo e, parodiando o ditado, "nada ficou como antes no quartel de Abrantes". A certeza do domínio, do controle sobre as informações, se perdeu, levando o desespero para empresários inescrupulosos ou incompetentes e seus gestores de comunicação.
Se era fácil no passado calar jornais, emissoras de rádio e TV, que cediam facilmente às pressões, particularmente a econômica, o mesmo não se pode dizer agora das redes sociais, dos grupos organizados que defendem causas específicas (ambientais, direitos humanos, relações democráticas no trabalho, direitos do consumidor etc). Logo, a coisa definitivamente "começou a pegar" para as organizações e elas, desacostumadas ao diálogo e ao relacionamento franco, têm posto literalmente os pés pelas mãos, muitas vezes mais perdidas do que cachorro que cai do caminhão em dia de mudança.
Esta falta de habilidade ou competência das organizações em lidar com a nova realidade tem a ver com uma série de circunstâncias. Em primeiro lugar, a cultura (e consequentemente o processo de gestão) da maioria das organizações, apesar do discurso em contrário, continua sendo avessa ao debate, à divergência , enxergando opiniões contrárias como afrontas que devem ser, quando possível, combatidas a ferro e fogo. Essa postura vale tanto para os públicos internos quanto externos e, notadamente os funcionários, sentem na pele ("manda quem pode, obedece quem tem juízo", não é assim?) o autoritarismo de chefias e mesmo de profissionais de comunicação a seu serviço.
Em segundo lugar, as organizações ainda não se deram conta (embora isso vá acontecer naturalmente com o desvendar desta nova realidade) de que o mundo ficou diferente e que será necessário, cada vez mais, rever os velhos conceitos. Já não dá para chamar a polícia para combater os grevistas, como as montadoras, por exemplo, faziam nos tempos da ditadura, não funciona mais o argumento da luta contra o comunismo para silenciar sindicalistas e profissionais de imprensa e muito menos é possível cooptar todos os
adversários porque eles são cada vez mais numerosos (subjugá-los todos é economicamente inviável).
Em terceiro lugar, as redes sociais, a blogosfera, permitiram que vozes individuais se afirmassem e os cidadãos não dependem mais da mediação da imprensa para expressar suas opiniões, divergências e repúdio à postura de determinas empresas. Essa independência em relação à mídia estimulou o espírito crítico e, com o avanço da legislação que protege o consumidor, defende as minorias secularmente discriminadas, pune os crimes ambientais etc, as organizações já não podem apostar no velho e sereno "mar da tranqüilidade" em que viviam.
Finalmente, as novas tecnologias também propiciaram a formação de uma consciência coletiva, a mobilização de grupos descontentes, a divulgação rápida dos abusos cometidos contra mulheres, negros, crianças, pobres, consumidores e estabeleceu-se, quase num passe de mágica, uma solidariedade planetária que tem abraçado causas diversas e que ruidosamente impacta a imagem e a gestão das organizações que não andam fazendo direito a lição de casa.
Isso não quer dizer que corporações predadoras não continuem existindo, mas elas não têm conseguido agora, como sempre fizeram, permanecer escondidas e se sentem, quase sempre, desconfortáveis quando desnudadas diante das luzes dos holofotes da opinião pública.
A força e a pluralidade das redes sociais encorajam os debates, os confrontos, as divergências e as organizações que se empenhavam (e muitas vezes tinham sucesso) para impor as suas vozes e interesses agora se vêem literalmente em palpos de aranha, ou seja têm que negociar com os públicos de interesse (os "stakeholders") continuamente, muitas vezes em desvantagem.
A unanimidade deixou de ser um ideal a perseguir porque inalcançável e a postura a ser adotada, na gestão dos negócios e na forma de se relacionar com os públicos, teve que ser revista.
As redes sociais exigem uma nova cultura de relacionamento que não se confunde com o controle, a censura, auto-censura, a obsessão pelo controle e subjugação das vozes contrárias. O negócio agora é interagir, dialogar, ouvir o outro lado, o que, convenhamos, para algumas organizações significa alto risco porque, ao longo do tempo, sempre optaram pelo caminho mais curto e nefasto do autoritarismo, da arrogância, da grandiloqüência na comunicação.
A comunicação nesses novos tempos exige novos atributos como a ética, a transparência, o profissionalismo e o compromisso com a liberdade de expressão, a pluralidade de opiniões. Ouvir mais e falar menos, este é o novo lema da comunicação moderna.
Temos que reconhecer que este novo modelo ainda é praticado por um número reduzido de organizações e será preciso não apenas mudar a cultura e a postura das organizações, mas investir fortemente na formação dos novos comunicadores, ainda presos a valores ultrapassados.
Nos cursos de comunicação, ainda se cultuam processos como "limpeza de imagem", ainda se festeja o "marketing verde", ainda se acredita na honestidade dos "cases de sucesso" que povoam a literatura e os eventos em Comunicação Empresarial. Ainda temos (são a maioria, infelizmente) gestores de comunicação interna que vêem os funcionários ( e o sindicato) como adversários, sempre dispostos a "detonarem" as organizações e que, por falta de competência ou insegurança, abrigam-se em salas refrigeradas em vez de circularem com desenvoltura pelo chão de fábrica.
A Comunicação Empresarial precisa visitar mais as obras de Paulo Freire, mas continua saudando alguns gurus de plantão e algumas agências/assessorias que apregoam e refinam velhos processos de manipulação, de cooptação e de hipocrisia empresarial.
A Comunicação Empresarial precisa quebrar barreiras e definitivamente comprometer-se com o debate, a divergência, o diálogo e, para tanto, precisamos de comunicadores mais corajosos, que se sintam incomodados em legitimar culturas autoritárias e propostas de comunicação transgênicas, hegemônicas, socialmente irresponsáveis.
O futuro não será generoso com as organizações que insistirem em preservar esta cultura dinossáurica, apoiada em hierarquias rígidas, em ameaças contra aqueles que delas divergem interna e externamente, e que abrem espaço para chefias sem liderança autêntica.
As redes sociais, os cidadãos, os comunicadores de cabeça erguida (não os pelegos que servem organizações predadoras) construirão um novo espaço de relacionamento, uma nova proposta para a gestão dos negócios e da comunicação.
Provavelmente, muitas organizações não poderão assistir a este novo momento porque terão ficado no meio do caminho. O futuro se constrói agora, a cada dia. Sem uma comunicação democrática, as empresas não irão a lugar algum. Você quer apostar?
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Terça-feira, 10 de novembro de 2009
Jornal laboratório não é house-organ! |
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A legislação que rege os cursos de Jornalismo explicita que toda universidade/faculdade que oferece um curso de Jornalismo deve dispor de um veículo (comumente designado de jornal-laboratório) onde os futuros profissionais de imprensa possam, na prática, aplicar os conhecimentos adquiridos e experimentar novas propostas.
Infelizmente, muitas instituições de ensino (e muitas chefias que dirigem os cursos de Jornalismo) parecem não ter entendido o "espírito da coisa" ou, por cumplicidade / má fé, resolveram transformar o jornal-laboratório num verdadeiro "frankstein pedagógico". Na verdade, têm transformado este veículo, fundamental para a formação do jornalista, num house-organ, um jornal a serviço da faculdade, quase sempre caracterizado pelo tom institucional, propagandístico, reduzido a um canal de promoção de reitores, chefes de gabinete, chefes de departamento, diretores de unidades e outras autoridades vaidosas do ensino, da pesquisa e da extensão.
Buscando ostensivamente burlar a legislação, aproveitam de mão-de-obra gratuita para "perpetrar" um veículo que nada tem a ver com laboratório, na medida em que se vale de uma fórmula surrada, pouco criativa e que ainda agrega outros atributos condenáveis para a formação de um jornalista, como a censura e a auto-censura. Na verdade, elas, muitas vezes estão disfarçadas, mas são reais, na medida em que a direção mantém o controle sobre a pauta, as fontes, o sistema de produção jornalística enfim.
As universidades, cursos e chefes de departamento que assumem este jornal-laboratório de fachada incorporam (e põem em prática) uma perspectiva de ensino que confunde educação com adestramento e cujo objetivo não é permitir o debate, o diálogo, a experimentação, mas a repetição de formas e fórmulas que engessam a criatividade, desestimulam a participação e contribuem para a burocratização do processo de produção jornalística.
Este equívoco precisa ser combatido, denunciado porque o jornal-laboratório não se resume a um espaço para ensino de técnicas, mas para um fórum permanente, um processo rico em que prevalecem a inquietude, a investigação, o espírito crítico, a disposição para "enxergar além da notícia".
Os jornais-laboratórios que têm a cara de chefias e reitores (e seus pelegos dispersos pela instituição) não contribuem em nada para a formação de jornalistas críticos, mas legitimam uma visão nefasta (que o Maluf não nos leia!) do ensino de jornalismo, que repete "leads", que confunde reportagem com "releases" e que tem como proposta (equivocada) eliminar as tensões inerentes à praxis jornalística.
É preocupante perceber como alunos de jornalismo (muitas vezes agrupados em classes com dezenas ou uma centena de pessoas) têm, passivamente, aderido a esta situação, quase sempre a eles apresentada como representativa da realidade profissional que aí está.
Não é razoável tolerar este cinismo e essa hipocrisia profissional. O jornal-laboratório é, por conceito, um espaço para experimentação, para ousadias, para novas propostas que devem ser colocadas além do mercado e não refém daquilo que aí está. Ao propor o jornal-laboratório como house-organ, as universidades e os cursos de jornalismo estão abrindo mão da capacidade de investigação, violentando o processo essencial da apuração dos fatos, e reduzindo o "ethos jornalístico" à badalação de pessoas e autoridades que detêm poder na instituição. São elas que definem as pautas, empurrando-as goela abaixo dos futuros profissionais que podem, a partir desta experiência nociva, imaginar que o jornalismo se pratica em ambientes refrigerados, onde predominam a harmonia, os "tapinhas nas costas", as fontes sempre disponíveis e a ausência de questionamentos.
Os alunos de jornalismo, e também os professores de jornalismo (muitos são cúmplices desta farsa pedagógica), precisam reagir imediatamente a esse processo que tem contribuído para a formação de profissionais-adesistas, de jornalistas de gabinete, freqüentadores ruidosos de coletivas e entusiastas das viagens "a convite de".
Nada, nada mesmo contra os house-organs, pelo menos os house-organs de verdade (a maioria dos que são editados pelas organizações não passa de "folders" mal elaborados) que cumprem um papel fundamental no Jornalismo e na Comunicação Empresarial.
O jornalismo não é atividade para ser exercida por jovens de cabeça baixa, sem auto-estima, que apenas cumprem pautas, de profissionais que não têm voz e opinião. É um espaço para debates acalorados, para tensões que refletem os interesses em jogo e que espelham, inclusive, o esforço individual e coletivo de servir à sociedade.
Abaixo o jornal-laboratório de fachada, este "jabá" pedagógico-institucional que está grassando nas universidades e cursos de jornalismo. Está na hora de dar um basta a essa violência contra o mercado profissional.
Não devemos formar jornalistas para beijar a mão de empresas transgênicas, verdadeiras monoculturas da mente, que estão mais preocupadas com o inseticida , com o glifosato que intoxica, do que com a semente que cultiva a diversidade. Convenhamos: a indústria tabagista, a indústria agroquímica , a da saúde, a de armas ou de biotecnologia e outras menos votadas devem adorar estes jornalistas-fantoches que não têm espinha e cérebro e se curvam a qualquer coisa. A Philip Morris continua patrocinando cursos de formação de "focas" promovidos pelos nossos jornalões, o que evidencia a relação promíscua (negócio é negócio, devem justificar os nossos empresários da comunicação) entre veículos e empresas que comercializam drogas (ainda que lícitas).
O jornal-laboratório de que precisamos não deve estar sob a tutela de reitores ou de diretores de unidades, muito menos de chefias de departamentos que não têm compromisso com a cidadania, com a educação para a liberdade.
Os alunos conscientes devem se rebelar contra este modelo que lhes têm sido imposto. Existe vida além da Monsanto (cuidado, round-up não é remédio e nem mata fome coisa alguma), da Souza Cruz (ela lucra e você leva fumo!), da Cataguazes (eta empresa ruim para construir barragens!), dos laboratórios que continuam recolhendo produtos perigosos, amplamente alardeados por uma propaganda milionária ( o FDA deixa passar qualquer coisa, não é mesmo?). Não se fie em quem esmaga o seu dedo (Fox é raposa ou estou enganado?) ou em quem chama plantação de eucalipto de floresta (que só tem valor quando derrubada!). Cuidado com as construtoras que destroem (buraco pra lá, fura-fila pra cá!), com as empresas áreas que voam com o reverso pinado e andam plantando perfis no Orkut para limpar a imagem desgastada!. Suspeite de universidades que andam proclamando sua responsabilidade social e fecham turmas a torto e direito ou reduzem vagas por ordem do MEC por causa da má qualidade do ensino.
O jornal-laboratório precisa incorporar estas pautas imediatamente. Comece a questionar, se for aluno de jornalismo, aquelas que os professores depositam no seu colo e que, muitas vezes, apenas servem para agradar a reitoria, para manter o status-quo ou até para fazer média com os clientes que os remuneram em suas agências/assessorias fora dos muros da universidade.
O bom profissional de imprensa aprende logo duas coisas que me têm acompanhado (e me sido útil) por toda a vida: 1) quem abaixa a cabeça e curva a espinha, deixa exposto o traseiro; 2) quem poupa o lobo, coloca em risco a ovelha.
Jornal-laboratório não é sinônimo de house-organ mal feito. Quem prefere o ar condicionado da sala, a maciez do sofá, a voz melosa das fontes, a pauta fácil, deveria buscar outra praia. O jornalismo é para aqueles que têm tutano, cérebro ativo e não têm receio de experimentar. Diga isso para o seu professor e para o reitor da sua universidade. Se for para fazer propaganda da instituição, cobre caro. Como a gente costuma repetir, "não tem almoço grátis".
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