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Segunda-feira, 18 de agosto de 2008
As nanotecnologias e a ganância do capital |
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Em artigo publicado em maio deste ano neste blog, intitulado Os grandes riscos dos nanotubos, alertávamos para os perigos inerentes às novas tecnologias, desenvolvidas por empresas e governos por motivos estratégicos (no caso das armas bélicas, por exemplo) ou por inspiração comercial.
Naquela oportunidade, citávamos pesquisa publicada na revista Nature Nanotechnology, que dava conta da relação confirmada entre nanotubos de fibra longa e câncer, chamando a atenção para a necessidade de cautela antes da introdução de tecnologias ainda não devidamente estudadas no mercado.
Neste final de semana, o professor Gilberto Dupas, coordenador geral do Grupo de Conjuntura Internacional da USP e autor do excelente livro O mito do progresso, publicado pela UNESP, reforçou esta tese com artigo publicado no Estadão (16/08/2008, p.2), com um título parecido (Os riscos das nanotecnologias) ao do nosso artigo postamente anteriormente neste blog.
O pesquisador adverte para o fato de que “a lógica do capital e da acumulação tem sido implacável” e para o fascínio de determinadas empresas em relação a “possibilidades de inovação e lucros em praticamente todos os setores”. Ou seja, o interesse privado tende a se sobrepor ao interesse público, afrontando a ética que deveria prevalecer em áreas onde os riscos de prejuízos incalculáveis à saúde e ao meio ambiente não são nada desprezíveis.
Giberto Dupas cita pesquisadores da US Environment Protection Agency que “já reportaram nanopartículas encontradas em fígado de animais de laboratório, vazamento para células vivas e o risco de novas bactérias desconhecidas atingindo a cadeia alimentar. Em agosto de 2007, a Sociedade Americana de Química anunciou que algumas novas formas de carbono (nanotubos) em produção já estão causando sério impacto ambiental com a emissão de substâncias tóxicas e cancerígenas”.
Estamos, certamente, brincando com o perigo e o mais nos assusta é o fato de já dispormos de uma série de produtos no mercado com a utlização de nanotubos e, sobretudo, porque as aplicações mais festejadas são exatamente aquelas que prevêem o seu uso na Medicina.
Ninguém sabe ainda o que acontecerá se essas nanopartículas caírem na corrente sanguínea e se espalharam pelo nosso corpo, o seu grau de toxidade, enfim o seu impacto na saúde humana.
É fundamental estabelecermos planetariamente um código de ética, de conduta, para disciplinar o tal do “progresso técnico” que, alavancado por empresas e governos, caminha sem qualquer limite, muitas vezes financiado por grandes interesses e desenvolvido secretamente em laboratórios privados ou oficiais.
A indústria da saúde há décadas vem utilizando seres humanos como cobaias, com evidências insofismáveis, sob o pretexto de contribuir para salvar a humanidade, ao mesmo tempo em que o “recall” de medicamentos aumenta a passos largos, comprovando a fiscalização deficiente de órgãos aparentemente sérios (FDA) e a visão gananciosa de laboratórios.
Está na hora de parar um pouco, refletir bastante e de instituir uma ética que permita coibir estes abusos. Sabemos que as empresas e os governos investem pesado em novas tecnologias e quase nada para mensurar o seu impacto na sociedade, no ambiente, na saúde etc.
Não podemos deixar que as definições de investimento em pesquisas permaneçam restritas à comunidade científica e aos governos e empresas que as financiam porque, infelizmente, eles não têm se mostrado confiáveis e, em alguns casos, estabelecem relações promíscuas em detrimento do interesse público.
Vamos com calma com o progresso técnico. Há certas brincadeiras, caras e refinadas, que têm pouco a ver com a ciência e a tecnologia responsáveis. Alguém precisa controlar esse desenvolvimento acelerado e que não contempla a perspectiva crítica ou ética. A gente já viu esse filme há mais de 60 anos e centenas de milhares de japoneses inocentes pagaram caro em Hiroshima pela utilização indevida, irresponsável de uma nova tecnologia. É assim que deve ser?
Em tempo: onde iremos colocar o lixo nuclear de Angra 3 e de outras usinas que o governo, pressionado pelo lobby nuclear, pretende construir no Brasil?
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Segunda-feira, 11 de agosto de 2008
A incrível "generosidade"da indústria do tabaco |
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O assunto é delicado, mas nem por isso deve passar em branco, como aliás não passou em branco pela Folha de S. Paulo de hoje. Inúmeras empresas (Souza Cruz, Acelor Mittal, Banco Real, Laboratório EMS, Amil), além de uma entidade (Instituto Danneman Simensem de Estudos de Propriedade Intelectual) e de uma Federação (Fenaseg) estarão bancando evento do Tribunal Regional Federal (TRF) num luxuoso hotel em Búzios, no Rio de Janeiro, no próximo final de semana.
Algum problema por causa disso? Bom, isso depende muito pelo ângulo que se contempla e, como a Folha, preferimos perceber que esta relação nem sempre transparente entre poderes constituídos e interesses privados não é razoável.
O apoio a eventos e patrocínios é uma postura comum no mercado, mas ele sempre tem (porque não existe almoço grátis) em mira uma contrapartida: quem oferece algo pretende alguma coisa em troca porque empresa alguma não estabelece estas relações por generosidade ou, trocando em miúdos, por mais ricas que sejam não têm o hábito de jogar dinheiro fora.
Esta é uma questão sempre complicada porque, pelo menos em princípio, não é razoável que empresas que possam ter pendengas na Justiça (e a Souza Cruz, como a Philip Morris, gigantes do tabaco têm aos montes) possam aproximar-se do poder judiciário, seja de que forma for. A Souza Cruz já tentou , em outra oportunidade, patrocinar a virtualização da Justiça, o que felizmente foi evitado a tempo porque o conflito de interesses é inevitável e não vale a pena estabelecer relações que, no futuro, possam alimentar suspeitas com respeito à isenção dos julgamentos.
Na prática, sempre segundo a Folha que é a nossa fonte nesse caso, não será o TRF que receberá o dinheiro captado, porque isso não é possível, mas a Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil) que “atuará como intermediária, devendo pagar a maior parte dos gastos” (citação da Folha).
Evidentemente, a Ajufe alega que nada há demais nesse apoio e que “tudo é feito com contrato, há prestação de contas aos associados” (citação da Folha). Como explica o seu presidente, Fernando Mattos, “isso acontece em outros ramos de atividade e com outros órgãos do serviço público”.
Ora, bolas, nem tudo o que acontece é moral, legal, legítimo e, caso comecemos a imaginar desta forma, chegaremos à conclusão de que a propina, o suborno, a corrupção em geral também devem ser toleradas porque, afinal de contas, já se incorporaram há muito tempo na cena brasileira, inclusive nos altos escalões.
Precisamos rever estes conceitos e é de esperar (mas não acontecerá, você acredita nisso?) que os órgãos competentes deliberem contra estas espertezas e essas benesses, resultado de parcerias, a meu ver espúrias porque nem sempre transparentes, entre autoridades e empresas privadas.
Como jornalista, não vejo, por exemplo, como válido qualquer argumento que me convença sobre a legitimidade do “jabaculê” e das matérias pagas que ainda abundam na imprensa brasileira, um tráfico de influência explícito, atitude inescrupulosa de empresários e que precisa ser repudiada sempre.
Não é possível ao menos aceitar a postura de determinados jornalões (o Estadão e mesmo a Folha que está estranhando agora a aproximação de empresas e autoridades), que buscam apoio da Philip Morris para seus cursos de formação de jovens jornalistas, mesmo depois de desbancarem a indústria do fumo em suas reportagens e até em editoriais, acusando-a de deslizes éticos, má conduta.
O mercado anda cheio destes “toma lá, dá cá” que evidenciam a fragilidade das organizações e a sua indiscutível tendência para estabelecer relações suspeitas, burlar a legislação ou mesmo, no caso da mídia, para insistir hipocritamente que informação é informação e negócio é negócio.
Não é possível aceitar impunemente estes desvios, sobretudo quando estão em jogo interesses poderosos, como o da indústria do tabaco que é responsável por centenas de milhares de mortes no Brasil, por prejuízos bilionários ao sistema de saúde e que anda o tempo todo nas barras dos tribunais.
Se é verdade, como proclamam as empresas que vendem drogas (cigarro é droga lícita, mas é droga, ou você tem dúvida?) que os fumantes que morreram ou ficaram mutilados e seus familiares jamais conseguem vitórias na justiça contra elas, a gente tem cada vez mais o direito de coçar a cabeça e desconfiar das decisões, que nos parecem injustas. Pera aí, cigarro mata mesmo e as empresas sempre esconderam esse fato, apesar de todas as evidências em contrário; logo, sobretudo os fumantes mais antigos, foram induzidos ao vício, sem estarem alertados das suas conseqüências nefastas. E o que dizer dos fumantes passivos que engoliram fumaça e se prejudicaram, quando as empresas negavam também esta evidência? Por que então elas sempre ganham na Justiça?
Por que nos Estados Unidos elas fizeram acordos de bilhões de dólares com Estados americanos como indenização por sua ação deletéria e aqui fica tudo por isso mesmo. Pizza com cigarro não combina, não é verdade?
Enfim, está na hora de disciplinar essa farra e de impor limites éticos, morais a estas aproximações nada confiáveis.
Isso significa também olhar com atenção para a incursão de empresas agroquímicas e laboratórios farmacêuticos em nossas escolas (andam falando agora numa parceria estranha entre a USP e a Monsanto, que já promove o "interessante" projeto Horta Cidadã pelo país, ensinando crianças e professorinhas a usarem agrotóxico!)
Quem senta à mesa com a indústria do tabaco, pode levar até vantagem, mas, com certeza, os brasileiros, nesse caso, acabarão levando fumo (desculpe a grosseria, mas é isso mesmo, sem meias-palavras). A corda sempre arrebenta do lado mais fraco. Tem fumaça demais nesta história. Alguém quer me emprestar uma máscara anti-poluição moral?
Em tempo: confiamos nos juízes brasileiros. Até segunda ordem, não há porque suspeitar deles e, por isso, é necessário deixar tudo claro, em pratos limpos. Transparência já!
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Quarta-feira, 6 de agosto de 2008
A Ambev e o endomarketing da humilhação |
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A AmBev está na Folha de S. Paulo de hoje, mas , desta vez, não está vendendo cerveja. Não se trata de publicidade, mas de uma notícia que deveria, mais apropriadamente, estar na editoria de polícia. Coisa feia, típica de empresa de fundo de quintal. Surpreso? De forma alguma, pois já me acostumei a ver a gigante da cerveja freqüentar o noticiário em virtude de sua cultura organizacional predadora.
Se você acredita que ela está apenas empenhada em tirar a sobriedade dos seus consumidores, com campanhas publicitárias que exibem muitos traseiros e poucos neurônios, não conhece o outro lado da história. Como dizem no interior, por fora bela viola, por dentro pão bolorento (ou cerveja com prazo de validade vencida, dá na mesma).
Pera aí: vai ver que você não leu a matéria da Folha e nem sabe do que estamos falando. Vamos explicar.
A AmBev está veiculando no Rio Grande do Norte uma campanha contra o assédio moral nas empresas. Não, não se trata de nenhuma ação de responsabilidade social da empresa, mas de uma campanha tornada obrigatória pela Justiça. Isso mesmo: a AmBev foi condenada (pela enésima vez) em ação pública por prática de assédio moral contra os seus funcionários. A campanha que está em jornais, emissoras de rádio e tevês faz parte da punição, embora (a Justiça foi boazinha demais com ela), não traga o logo ou a indicação de que é a AmBev quem está pagando a conta. A AmBev está fazendo campanha publicitária contra a sua vontade!
Você gostaria de saber o que ela faz (ela garante que não faz mais essas coisas, desistiu desta estratégia de incentivo à produtividade!)? Pois, vamos lá, repetindo o que está na Folha. “De acordo com os procuradores (que decidiram pela punição da empresa, o parêntesis fica por nossa conta!), vendedores que não atingiam metas eram punidos com situações embaraçosas na frente dos companheiros de trabalho. Entre outros métodos ‘motivacionais’, como diziam os empregados, eles eram impedidos de sentar-se durante reuniões, tinham de fazer a dança da garrafa para os colegas, pagar flexões, limpar vidraças e usar camisetas com dizeres ofensivos.” (Caderno Dinheiro, pág. B11, de 06/08/2008).
Enfim, a Ambev praticou o “endomarketing da humilhação”, que talvez a empresa tenha pensado, algum dia, utilizar como case de sucesso e inscrever em alguns dos prêmios que temos por aqui. Com certeza, levaria o troféu, se levarmos em conta a seriedade de algumas premiações existentes no mercado, meros balcões de negócios pagos com selinhos, diplomas e certificados para dependurar na parede (há gerentes que têm orgasmo só de mirar os seus quadrinhos!) . Não é que a Ambev ganhou o prêmio de empresa de comunicação da ECA/USP exatamente no ano do episódio do Zeca Pagodinho (aquele que deixou uma cervejaria, entrou em outra, e protagonizou um espetáculo de “ética na propaganda” que se tornou emblemático no mercado!) ?
É pena que a campanha não esteja sendo veiculada em todo o Brasil e que na condenação se tenha poupado a AmBev de ter o seu nome identificado nas peças. Todo mundo precisaria saber o que acontece dentro dos muros da empresa.
A AmBev, junto com agências, outros anunciantes , entidades de auto-regulação e veículos de comunicação têm usado o argumento da liberdade de expressão para continuar entrando em nossas casas com o seu discurso pró-álcool, mesmo sabendo que está atingindo jovens e crianças em horários de veiculação inadequados. Uma empresa dessas pode levantar a bandeira da liberdade de expressão? Tem moral para alguma coisa?
A truculência das organizações precisa ser denunciada sem dó. Elas gostam de criar clubes de admiradores na Web, proclamar a sua responsabilidade social, mas, no fundo, quando se tira a máscara, não passam de arremedos de empresas modernas.
Cartão vermelho para a AmBev (ela adora patrocinar esportes e sabe o que significa isso!) e para todas as empresas que continuam achando que podem humilhar os seus funcionários impunemente. A punição foi leve para uma postura condenável como essa. Se concorda conosco, multiplique esta informação. Coloque “AmBev assédio moral” como palavra-chave no Google e verá o que pode resgatar: são muitos, muitos casos, evidenciando que esta é (ela diz que foi!) a conduta normal disseminada pela cultura da empresa.
Talvez pessoas mais generosas possam argumentar que ela, quando agiu assim, estava bêbada, tinha passado dos limites. Há culturas organizacionais que não resistem mesmo à Lei Seca da moralidade, da democracia, da comunicação interna. Nesses casos, só há um solução: denunciar sem moderação (até rimou!).
Vamos criar o “bafômetro” da democracia interna para pegar essas empresas. Entre nesta campanha que, diferentemente daquela que a AmBev anda divulgando no Rio Grande do Norte, não é obrigatória. Sai bafo ruim!
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Quarta-feira, 30 de julho de 2008
Automedicação e intoxicações:cenário triste |
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Os dados são mais do que preocupantes: no Brasil, em 2006, houve 3 casos por hora de intoxicação por medicamentos e estes números são 30% maiores do que no ano anterior. No total, em 2006, foram quase 39 mil casos contra pouco mais de 25 mil em 2005. Ou seja, estamos novamente batendo recortes negativos na área da saúde, só que desta vez não adianta buscar a justificativa mais fácil: colocar a culpa no governo.
Há inúmeros motivos que, segundo os especialistas, provocam estes “acidentes”: consumo abusivo de remédios, desconhecimento com respeito às contra-indicações e a prática nociva da automedicação. Evidentemente, alguns deles são culturais e, para atenuá-los, será necessária uma mudança profunda na maneira pela qual os diversos segmentos sociais contemplam a doença e a cura. Mas há também situações que podem ser controladas a curto e a médio prazos.
A automedicação é, por exemplo, facilitada pela “empurroterapia”, o péssimo costume que os empregados das farmácias (há mais farmácias do que padarias no Brasil) têm de empurrar remédios para as pessoas que buscam o estabelecimento, muitas vezes em substituição aos prontos-socorros que continuam cheios e atendendo precariamente, com raras exceções. Além disso, ela é estimulada pela propaganda dos laboratórios que, baseados na proposta de “um antes e um depois”, freqüentam sobretudo o rádio e a televisão, sugerindo a ingestão sem critério de medicamentos. Não se pode ignorar que, no Brasil, se compra remédio, mesmo aqueles que exigem prescrição médica ou ainda a retenção da receita, com a maior facilidade porque muitas farmácias (há redes poderosas por aqui) não passam de centros de arrecadação e não estão nem aí com a saúde dos cidadãos. Uma fiscalização ainda que ligeira vai indicar (como tem ocorrido) que não há farmacêuticos presentes no estabelecimento, como prega a lei, e, em boa parte dos casos, o nome do farmacêutico responsável (toda farmácia deve ter um) é apenas um procedimento formal. O cruzamento de dados pode indicar que um único farmacêutico responde por várias farmácias e fica difícil explicar como ele consegue estar em todas elas ao mesmo tempo.
A falta de informações sobre contra-indicações tem também a ver com os laboratórios e o IDEC – Instituto de Defesa do Consumidor tem continuamente chamado a atenção para a precariedade informativa das embalagens e das bulas, que contribuem mais para confundir do que para esclarecer. Isso acontece, segundo o IDEC, até com os remédios de tarja preta, aqueles que deveriam merecer a maior atenção.
No final das contas, como explica o médico Antonio Barbosa Silva, do Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos, em reportagem publicada pelo Estadão no dia 27 de julho último, as farmácias dispensam a orientação clínica e nem todos os medicamentos disponíveis estão respaldados em estudos consistentes, em virtude mesmo do lobby poderoso dos laboratórios.
As farmacinhas que as mamães e os papais costumam manter em casa (que apresentam uma porcentagem enorme de remédios com data vencida, sendo portanto utilizados indevidamente) contribuem para aumentar o problema, tornando como vítimas principais as crianças e os idosos, aliás adesistas importantes da prática da automedicação.
Precisamos fazer a nossa lição de casa, mudar nossos hábitos, convencer nossos amigos e familiares de que remédio não é bala e que sempre tem efeito colateral e, sobretudo, cobrar da indústria da saúde e das autoridades maior seriedade nessa área.
Não vamos por aqui pregar a mesma cantilena dos fabricantes de bebidas e de alimentos não saudáveis voltados para as nossas crianças e acreditar na auto-regulação. Esta história é para boi dormir e só ganha corpo porque agências de propaganda, veículos e anunciantes estão mobilizados para continuar ganhando dinheiro, muito dinheiro, à custa da saúde de todos nós.
Cuidado com essa gente. Ela só tem compromisso com o próprio bolso , mas gosta de sair por aí defendendo a liberdade de expressão. Não tente me enganar que eu não sou bobo e detesto o oportunismo de democratas de última hora. Está na hora, definitivamente, de acabar com estes monopólios da comunicação, de denunciar a propaganda irresponsável de medicamentos e de colocar na cadeia quem lucra com a doença das pessoas.
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Terça-feira, 29 de julho de 2008
Transgênicos: mico ou Brastemp? |
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A controvérsia a respeito dos transgênicos continua rolando solta, mas não era de se esperar outra coisa, mesmo porque nem sempre é fácil confiar nas fontes que estimulam o debate, já que assumem, invariavelmente, compromissos com as teses e os interesses que defendem.
Para a apologia dos transgênicos, lobbies não faltam, como o realizado pelo CIB – Conselho de Informações sobre Biotecnologia (ONG a serviço das empresas que fabricam sementes engenheiradas e que visam unicamente o monopólio nessa área) e o exercido diretamente pelos fabricantes. Tem até pesquisador entrando de gaiato nesta briga porque, egoisticamente, pensa apenas em continuar o seu trabalho, sem se dar conta de quem anda efetivamente lucrando com ele. Num país onde a pesquisa é tão pouco valorizada e as universidades andam correndo pires por aí , os pesquisadores ficam mesmo vulneráveis e podem ser assediados com facilidade. Mas não generalizemos: há quem resista a esta pressão e continue mantendo a sua dignidade e independência. Não se coopta com facilidade pesquisadores comprometidos com o País e o interesse público e temos muitos deles, com esse perfil exemplar, no Brasil.
As opiniões contrárias podem, também, em muitos casos, ser radicais (nunca esquecer que radical vem de raiz e que é melhor ter raiz do que ser geléia geral), mas cumprem, a meu ver, um papel pedagógico importante: chamar a atenção para o assédio das empresas que só têm um objetivo: lucrar, lucrar, lucrar. Ou você acha que a Bayer, a Monsanto, a Syngenta,a Du Pont etc estão lá preocupadas realmente com a fome do mundo? Você acha que desenvolvem tecnologia por generosidade? O público prioritário dela são os investidores e não os que andam de barriga vazia.
Se você ainda não as conhece bem, deveria pesquisar mais sobre elas no Google, por exemplo, que é fácil, rápido e de graça. Já experimentou colocar como palavra-chave suborno na Indonésia ou agente laranja no Vietnã? Ou teve a curiosidade de acrescentar problemas (ou problems) à frente do nome destas empresas para ver o que se recupera na web?
Mas vamos ao nosso assunto de hoje: a newsletter da Envolverde (24/07/2008), uma agência de comunicação voltada para a questão da sustentabilidade, portanto comprometida com a divulgação ambiental, trouxe mais um motivo para que desconfiemos do papo das transgênicas. Universidades americanas estão descobrindo (demoraram, hein?) que, ao contrário do discurso das fabricantes de transgênicos, a produtividade destas sementes não é lá nenhuma Brastemp (estou usando a expressão, mas quem tem Brastemp em casa sabe como dá defeito pra caramba!) e que pode ser (e tem sido aqui e acolá) inferior ao da soja tradicional.
Vamos aos fatos. A Universidade do Kansas publicou recentemente que a produtividade de determinados cultivos transgênicos como os de soja, milho, algodão e canola , nos últimos 3 anos (o trabalho foi publicado em abril de 2008) foi menor do que aquela que estas culturas tinham antes da chegada dos transgênicos. No ano passado, outra universidade, a de Nebraska também concluiu que a soja transgênica da Monsanto (este santo no nome sempre me soou mal!) produzia 6% menos que a mesma variedade não transgênica da empresa e menos de 10% da melhor variedade disponível da soja não transgênica. Ou seja, tem rolo nesse discurso de que transgênico é sempre mais produtivo.
No Brasil, é possível resgatar estudos que evidenciam a mesma coisa, ou seja, a propalada produtividade dos transgênicos nem sempre é verdade. Aliás, raciocinemos juntos. Antes da chegada dos transgênicos no Brasil, como conseguimos, em pouco mais de 10 anos, sair do zero para chegarmos a ser o maior concorrente dos EUA, que produziam há um tempão a soja transgênica. Houve algum milagre aí? Como é que isso foi conseguido? Para que serviu então a produtividade deles? Esta história está mal contada e as autoridades estão escondendo estes dados. A soja transgênica é mesmo, em qualquer situação, mais produtiva do que a tradicional? Por que a Embrapa não confirma isso? Ela não ajudou o Brasil a ganhar terreno internacionalmente muito antes dos transgênicos com a semente tradicional? Qual o objetivo estratégico dos seus acordos recentes com Monsanto e Bayer? Quanto ganharemos com eles ou corremos o risco de nos tornarmos reféns de uma tecnologia importada?
Puxa, sei mais do que ninguém como a Embrapa é séria e competente (uma das melhores coisas, junto com a Fiocruz, em termos de pesquisa nestes País), mas não dá para engolir este discurso hipócrita das empresas de biotecnologia e, no fundo, a própria Embrapa nunca irá negar isso. Há divergências lá dentro, sabia disso? A pesquisa, a grana e a política nem sempre se entendem e dá para imaginar as razões.
Está certo, a gente conhece bem como funciona o lobby que tem nos dado nos últimos anos os ministros da área, comprometidos até o último fio de cabelo com as grandes empresas, a ABAG , a ABIA e por aí vai. Faz parte do jogo da democracia, não é verdade? Ou você acha que os grandes interesses iam permitir que os titulares da pasta tivessem outro compromisso? Você nunca se deu conta de que o modelo de desenvolvimento que praticamos privilegia a exportação de commodities e a valorização das monoculturas? Se você desse um jeito de comer mais soja, chupar mais cana e, quem sabe, folha de eucalipto, estaria bem, mas, se insistir no arroz, feijão, trigo, milho, poderá ter algum problema.
O importante é que você não caia no conto da “vantagem dos transgênicos”, que seja mais investigativo, mais crítico. Esteja também vigilante com os que andam dizendo que só há desvantagens nesta tecnologia, mas separe bem o joio do trigo. Se a informação vem do CIB, das empresas de biotecnologia, é para desconfiar mesmo. Dê crédito para a Embrapa (mas não coma na mão dela de graça) e para pesquisadores independentes (existem sim, pode crer, pelo menos no Brasil). Ouça entidades que têm restrições a este discurso e que pedem cautela com respeito a esta tentativa afoita de introduzir transgênicos em todo lugar. Não acredite também na mídia porque ela, nesse caso, com raras exceções, segue sempre o dinheiro, ouve as mesmas fontes, geralmente as comprometidas com os lucros dos fabricantes.
A web tem informações pró e contra os transgênicos. Circule pelos dois lados e descubra sempre quem está por detrás da notícia. Radical, tudo bem, até pode ser, mas ingênuo ou babaca, não.
Em tempo: tente descobrir pela web o que algumas empresas andam fazendo por aí para calar a boca dos que ousam enfrentá-las. O problema não é só lobby, não: a barra fica pesada mesmo, particularmente para jornalistas e cientistas. Toda vez que há muito dinheiro correndo, o jogo é bruto e sujo. Isso vale para a biotecnologia, para a indústria da saúde, para as agroquímicas e outros setores menos votados.
Em tempo: também não acredite (nem pense nessa possibilidade) na tese de que as empresas de agrotóxicos é que andam espalhando por aí informações contrárias aos transgênicos. As empresas de biotecnologia são exatamente as que monopolizam a produção e a comercialização de agrotóxicos em todo mundo. No Brasil , a Monsanto ganha mais dinheiro vendendo veneno do que sementes engenheiradas. Vale o mesmo para a Bayer, a Syngenta, a Du Pont etc. Mas elas certamente pensam em convencer a gente (nem que seja na marra) para alterar este cenário, ganhar mais dinheiro com os dois negócios que, na prática, andam de mãos dadas. Na verdade, o grande negócio da biotecnologia é esse: operação casada entre sementes e veneno. Ou você acha que a semente de soja roundup e o herbicida roundup são de empresas diferentes? Você não sabia que uma não vive sem o outro? Quando uma empresa de biotecnologia se olha no espelho, vê a outra e vice-versa. Eu , hein? Como dizia o velho caboclo, Xô, Satanás!
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Quarta-feira, 23 de julho de 2008
Nestlégate: assim agem as corporações |
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A polêmica está fervendo na Europa, depois da denúncia de que a Nestlé, gigante dos alimentos, foi pega na boca da botija por espionar a ATTAC (Asociación por la Tasación de las Transacciones financieras especulativas y la Acción Ciudadana) uma ONG global combativa, e que estaria organizando um livro/dossiê sobre a empresa.
Segundo as notícias que chegam do Velho Mundo e que já corre por todos os cantos (toda espionagem, toda ação anti-ética merece denúncia, não é mesmo?), a Nestlé pagou um dinheirão (falam em mais de 60 milhões de euros) para que uma empresa de seguros suíça, a Securitas, infiltrasse uma espiã (A Sara Meylan é agora figura conhecida) na entidade. O fato ocorreu entre 2003 e 2004 e a Sara fez, ao que parece, um serviço completo: elaborou um dossiê sobre os colegas da ATTAC, inclusive contemplando posições ideológicas etc, postura típica dos velhos e nada saudosos tempos da ditadura.
Muita gente estranha essas coisas, até porque imagina que isso só acontece por aqui, como os grampos da Polícia Federal e de empresas que querem ferrar os concorrentes, mas parece que a espionagem está banalizada globalmente. A HP recentemente também se viu em dificuldades (falta de ética causou má impressão!) porque andou fazendo escuta telefônica de executivos e até de jornalistas de negócios. Gente graúda dançou por lá e era mesmo para puxar o carro para sempre, depois desses deslizes éticos.
No fundo, são essas as empresas que costumam se proclamar socialmente responsáveis e que dão uma de boazinhas por aqui, freqüentando inclusive congressos do Instituto Ethos, distribuindo materiais de divulgação sobre suas ações sociais. Pode?
Vai ver que o pessoal de lá pensa como a Exame, que anda chamando safadeza ética de inteligência empresarial (veja nosso comentário sobre os links do Google e seqüestro de artigos para sites pouco recomendáveis). Pode espionar, perseguir, processar, vale tudo por dinheiro.
Quem puder ler o livro Crimes Corporativos (publicado no Brasil pela Scritta, mas esgotado), encontrará também o caso do lobby do leite em pó relatado com detalhes. Você também poderá encontrar informações sobre a Nestlé no artigo (disponível no Scielo) de Marina Ferreira Rea e publicado na Revista de Saúde Pública, intitulado Substitutos do leite materno: passado e presente ( http://www.scielosp.org/pdf/rsp/v24n3/11.pdf.) Enfim, estas coisas pouco éticas, nada transparentes, muito pelo contrário, não são novidade para algumas corporações.
Vale a pena acompanhar o caso e, como a ATTAC em sua origem tem ligação com o Le Monde Diplomatique, certamente as coisas vão ganhar maior divulgação ainda, se é que ele não publicou nada ainda (desconheço, mas vou procurar).
Eu estou me baseando nos materiais da imprensa internacional e de ONGs de fora e talvez a Nestlé tenha alguma explicação convincente para o procedimento e até esteja em condições de desmenti-lo. Parece que a tarefa não será fácil porque , segundo as notícias, até o governo suíço já entrou na história. Seria bom, se for verdade, que não acabasse em pizza, ou melhor em chocolate. A reputação de algumas organizações, envolvidas em casos como esse, acabam ficando com mais furo do que queijo suíço. Sabia que alguns queijos cheiram mal? Tem bicho? Pois é.
Em tempo: no ano passado, circulou a notícia de que a Nestlé havia assinado contrato com a prefeitura de São Paulo, sem licitação, para fornecimento de leite em pó, mas depois não vi falar mais nada. Como existe jogo político por trás de denúncias como essa, acabei não sabendo como o caso acabou. Se você souber, dê um alô. Não quero concluir nada, sem maiores dados, mesmo porque não se pode colocar a mão em determinadas cumbucas. Vai ver que estão me espionando também? Só porque como chocolate e tomo iogurte?
A indústria de alimentos poderia é deixar as nossas crianças em paz. Que o Governo restrinja mesmo a publicidade destas porcarias anunciadas na televisão. Pensar que veículos, entidades de auto-regulamentação (raposa tomando conta de galinheiro!), anunciantes e agências defendem a tese de que restringir é afrontar contra a liberdade de expressão. Liberdade de expressão de quem? De empresa de alimentos? Esse pessoal quer continuar ganhando dinheiro à custa da obesidade e do colesterol das nossas crianças. O dinheiro corrompe mesmo.
Em tempo: se a propaganda não influencia a compra e os hábitos de consumo, por que as empresas continuam anunciando? Elas gostam de jogar dinheiro fora? Xô,Satanás!
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