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Quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
A Comunicação Empresarial brasileira precisa de uma Revista de Errologia |
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Uma notícia que pode parecer estranha à primeira vista (tentaremos convencer os nossos leitores de que, muito pelo contrário, ela traz uma lógica e uma razão implícitas) chamou a atenção da comunidade científica recentemente: está sendo lançado um periódico para dar conta das pesquisas que não deram certo. Ou seja, em vez de relatar resultados bem sucedidos das investigações, ele vai focar aquilo que não funcionou.
A iniciativa é de um biólogo brasileiro chamado Eduardo Fox, da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro, e tem como objetivo apresentar os experimentos que falharam ou chegaram a um resultado inesperado. O periódico científico se intitula “Journal of Errorology” (Revista de Errologia) e publicará situações a que os pesquisadores chegaram mas que ainda não têm explicação científica.
A justificativa faz sentido: os erros cometidos, se estudados, assumem um caráter pedagógico e este processo de análise (e até de autocrítica) pode evitar que outros pesquisadores cometam os mesmos equívocos.
Todos sabemos que as revistas científicas (o mesmo acontece com as teses defendidas nas principais universidades em todo o mundo) sempre relatam o que deu certo, ou mais precisamente as hipóteses e métodos utilizados pelos pesquisadores acabam se mostrando apropriados ao final e a conclusão é uma só: eles sempre pensam e agem correto, são, portanto, infalíveis ou geniais.
A experiência tem demonstrado que não é bem assim e que muitas vezes a idéia original acaba mudando de rumo no meio do caminho mas, como faz parte da arrogância científica não confessar estes deslizes de pensamento e precariedade de técnicas e métodos , tudo parece que foi concebido e realizado da maneira ideal. Além disso, por razões comerciais, muitas pesquisas (sobretudo na área da saúde/Medicina, mas vale pra todas as áreas, como por exemplo a de biotecnologia, com a descarada apologia dos transgênicos) acabam tendo os dados manipulados para atender os interesses comerciais das empresas que as patrocinam (a BigPharma frauda ostensivamente os dados para favorecer os seus medicamentos, em muitos casos conferindo-lhe a eficácia que não têm!). Cientistas (???) e empresas alteram os dados para “aparecerem bem no filme e obterem vantagens pessoais ou comerciais”. O número de relatos de fraudes científicas tem crescido bastante nos últimos anos.
Por causa disso, uma Revista de Errologia vem a calhar. É útil saber o que (e por que motivo) deu errado e mais importante ainda seria descobrir o que pesquisadores fizeram para que os erros das suas pesquisas fossem mascarados.
Embora esta Revista esteja sendo cogitada provavelmente para as chamadas ciências tradicionais, estaremos defendendo aqui a criação imediata de uma Revista de Errologia focada na comunicação empresarial. Puxa, ela cumpriria um papel importante, sobretudo no Brasil, porque o mercado nesta área anda padecendo de uma síndrome particular: a “do case de sucesso”.
Quem freqüenta os eventos (há congressos, simpósios, seminários às pencas em Comunicação Empresarial/Organizacional) ou acompanha as revistas, muitas editadas por entidades de prestígio, não tem dúvida: tudo ali acontece da maneira esperada, ou seja, todos os cases são de sucesso, um tedioso mundo cor-de-rosa. São sistemas de gestão de crises, esforços de relacionamento com a mídia, projetos de comunicação interna que funcionam admiravelmente e que acabam recebendo as mais importantes premiações. Você já percebeu como há prêmios nesta área? Se for atento, irá descobrir que, em muitos, muitos casos, recorrentemente, são contempladas as empresas em que trabalham os diretores das entidades que os concedem. Santa coincidência, não é?
Pois é, esta hipocrisia empresarial mereceria uma Revista de Errologia, que nem precisaria ter um caráter estritamente científico, mas profissional. Afinal de contas (vamos falar sério, gente?) nem tudo é uma “Brastemp” (que aliás também não é uma Brastemp mas uma marca repleta de problemas) no universo da comunicação empresarial e há muita gente “comendo mortadela e arrotando caviar”.
Citemos alguns exemplos para ilustrar a nossa tese.
A comunicação interna, na maioria das organizações, se caracteriza pelo autoritarismo das chefias, por culturas empresariais que, apesar do discurso, são avessas ao debate, ao diálogo e que cultivam apenas a adulação, o “oba-oba”, e odeiam a divergência de idéias e opiniões. Mas os cases de sucesso garantem que os funcionários são protagonistas de sua própria história, “o maior patrimônio da empresa”.
As crises empresariais (e como há crises hoje em dia envolvendo as organizações!) , no relato de agências/assessorias e de gestores de comunicação, sempre acabam bem, o que significa que elas sempre fizeram o correto para administrá-las, mas a gente sabe que as empresas cometem graves equívocos nesses momentos (sonegam informações ou “se fecham em copas”, desrespeitam consumidores e outros públicos de interesse etc).
Os discursos empresariais sempre proclamam a responsabilidade social e a sustentabilidade das organizações mas andam invariavelmente descolados da realidade porque, no fundo, elas não querem abrir mão de seus lucros e fazem qualquer coisa para mantê-los, ainda que à custa da degradação ambiental, do prejuízo à sociedade etc. Pois não é que até a Apple, que sempre foi vista como um ícone moderno, acaba de ser desmascarada porque explora terrivelmente os que trabalham para ela em países asiáticos? O iPad, tão badalado, esconde em sua fabricação mortes e feridos e uma afronta dramática aos direitos humanos. Isso já aconteceu com a Nike, que explorou como pode o trabalho infantil, e aconteceu recentemente por aqui com a Zara, que desfila toda garbosa nos shoppings centers brasileiros, ao mesmo tempo que judia dos imigrantes em nosso País (foi condenada, mas pagou muito pouco pelo erro).
É fundamental que muitas revistas de Errologia sejam produzidas e que a verdade venha à tona, substituindo esta hipocrisia, este cinismo empresarial que deveria, em vez de aplausos e premiações, merecer o nosso repúdio.
É forçoso reconhecer que há empresas comprometidas com o meio ambiente, que respeitam os consumidores e que efetivamente se relacionam bem com os seus stakeholders e que, portanto, estarão, provavelmente, distantes da pauta destas revistas, mas a maioria delas merecia figurar nestas publicações.
Os erros precisam ser revelados não apenas para que os bem intencionados aprendam com eles e possam mudar, por decisão própria, de postura, de conduta, de atitude, mas para que o mercado e a sociedade acertem as contas com aqueles que insistem em cometê-los, penalizando o meio ambiente, os direitos humanos, a saúde ou a qualidade de vida dos cidadãos.
Como diz o ditado, errar é humano mas insistir no erro é burrice. Dissimulá-lo por motivos comerciais ou para satisfazer o ego de gestores de comunicação ou de agências/ assessorias é mais do que isso: representa uma grande sacanagem contra todos nós. Revistas de Errologia neles.
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Terça-feira, 17 de janeiro de 2012
A imprensa está refém de fontes externas? |
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Os estudantes de Jornalismo aprendem nas salas de aula que toda reportagem se inicia com uma pauta, um roteiro básico focado em um tema, com informações mais ou menos detalhadas sobre fontes e focos de cobertura, definido pelos veículos em função de sua linha editorial. As reuniões de pauta são “glamurizadas” de tal modo que os futuros profissionais imaginam estar diante de um grupo de jornalistas, solertes e experientes, prontos para um debate profícuo que norteará a cobertura da próxima edição. Para os jovens, sempre há uma reunião de pauta , comandada a partir da redação. Na prática, a boa reportagem começa por aí.
Como dizia o poeta, ledo engano. Embora reuniões de pauta ainda existam, é fácil perceber que, na maioria dos veículos, agora fragmentados em editorias, e, portanto, com tempos de produção diversos, as coisas não são tão óbvias nem tão charmosas.
Um olhar, ainda que ligeiro, pelas reportagens/notícias dos nossos jornalões vai nos encaminhar para fora das redações, se quisermos efetivamente identificar a origem das pautas. Em boa parte, elas têm sido gestadas, pensadas, planejadas nas assessorias de imprensa a serviço das empresas, entidades e mesmo do Governo. Com raras exceções, as pautas se originam das redações, ainda que estas possam, ingenuamente, imaginar que as tenham sob controle.
Se fosse assim, a imprensa teria descoberto as condições precárias das pistas dos aeroportos antes do desastre trágico da TAM há poucos anos, o maior da aviação brasileira. Se fosse assim, a imprensa estaria descobrindo que as notícias pró-transgênicos têm sido alimentadas por agências de comunicação e pelo CIB (Conselho de Informações sobre Biotecnologia) e não continuaria comprando gato por lebre, repetindo argumentos que têm a ver mais com lucros do que com ciência. Se fosse assim, a imprensa não abrigaria a tese de que restringir determinado tipo de propaganda (bebidas, alimentos infantis, medicamentos etc) é uma afronta à liberdade de imprensa, quando se trata , na verdade, de preservar interesses de agências de propaganda e de anunciantes. Se fosse assim, a imprensa não continuaria repetindo que a indústria tabagista é socialmente responsável (enquanto mata milhões em todo o mundo e adoece outros milhões) e que são os indígenas que atrapalham as mineradoras e as empresas de celulose e não o contrário.
A imprensa brasileira não é tão investigativa como proclama ser, não é ética suficiente para cobrar, com legitimidade, esta postura de empresas e governantes e nem tem “rabo preso com o leitor” coisa alguma. Pelo contrário, esta visão (também “glamurizada” de objetividade e neutralidade) nunca existiu e nunca existirá em imprensa alguma porque, afinal de contas, todo veículo tem vínculo, tem passado e presente (que às vezes o condenam), tem patrão e financiadores diretos e indiretos. Não é preciso fazer curso de Jornalismo para saber que imprensa livre “é história para boi dormir”.
A imprensa brasileira precisa estar consciente da sua atual fragilidade , que se intensifica à medida que o departamento comercial bota o dedo nas redações ( em muitos casos chega a enfiar a mão toda e o pé todo, configurando um verdadeiro estupro profissional). Ela precisa iniciar, com urgência, um processo de reformulação, buscando aumentar a sua massa crítica. Deve substituir os equivocados “projetos de mercado” e “publieditoriais” por um jornalismo realmente comprometido com o debate público e não ficar proclamando a sustentabilidade de bancos e agroquímicas, predadores por excelência.
A imprensa brasileira precisa deixar de ser pautada pelo oficialismo governamental ( ela reclama do Governo mas não vive sem ele, como a Amélia que, pelo menos na música, gostava de apanhar!) e desconfiar mais das coletivas regadas a vinho e camarão e dos executivos adestrados em programas de “media training”.
Certamente, o cenário atual tem a ver com o “encastelamento” dos profissionais nas redações, buscando informações prontas (não investigadas) na Web, nos releases empresariais ou nos sites dos poderes legislativo e executivo. Tem a ver com a insistência em ouvir repetidamente os mesmos políticos, as mesmas autoridades, os mesmos empresários, como se o debate devesse ser encaminhado sempre a partir das mesmas fontes, algumas das quais com pouca coisa pra dizer e muita coisa pra ocultar.
As reuniões de pauta só poderão ser frutíferas para a cidadania (as reuniões atuais, quando existem, favorecem mais os anunciantes e as agências de comunicação a serviço das grandes empresas) se os jornalistas, previamente, se dispuserem a investigar, a enxergar além da notícia, a confrontar informações, a buscar por conta própria aquilo que as fontes jamais entregarão de bandeja.
Os jornalistas e os veículos dependem hoje das investigações da Polícia Federal (isentas?), dos fuxicos de políticos e autoridades, e vivem produzindo a partir de “offs”. Para que possamos resgatar as reuniões de pauta autênticas, com certeza teremos que mudar a cabeça da maioria dos jornalistas e dos veículos, já acostumados a um sistema de produção burocrático, insosso, insípido e inodoro, uma mentalidade transgênica porque uniforme, estéril e contrabandeada de outras praias.
Se as reuniões de pauta voltarem a acontecer sob o controle efetivo das redações, talvez tenhamos chance de encontrar, nas bancas, veículos mais plurais, mais inteligentes e menos previsíveis. Talvez as manchetes e as chamadas de capa deixem de ser as mesmas em todos os veículos e comecemos a encontrar novamente os jornalistas cruzando as ruas e não apenas frequentando os saguões refrigerados das empresas, os corredores do Congresso e as salas da Fiesp.
Não há outra saída: para pautar de verdade, é necessário abrir os olhos, arregaçar as mangas, gastar sola de sapato e descartar a mesmice. As boas pautas não costumam cair no colo e só podem ser feitas com autonomia e coragem. Exatamente o contrário do que propõe o Departamento Comercial, preferem os anunciantes e andam fazendo os jornalistas preguiçosos.
Os estudantes , quando chegam às redações, logo descobrem a dura verdade: as pautas estão sendo arquitetadas fora das redações. Sem qualquer “glamour” mas contaminadas por lobbies e interesses. È pena porque muitos deles acabarão aceitando as regras do jogo. E em jogo de cartas marcadas, o Jornalismo e a cidadania sempre perdem. Nesse caso, vale a pena chorar pelo leite derramado.
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Segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
A ameaça das monofontes é real na cobertura jornalística brasileira |
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Um dia desses, no não muito distante mês de novembro de 2011, o Valor Econômico estampava reportagem de página inteira sobre uma grande empresa agroquímica, saudada no lead como uma das maiores do mundo. O foco da matéria era a sua sustentabilidade, para o qual a repórter reunia inúmeras virtudes (só virtudes!). O tom descambava terrivelmente para o discurso publicitário e, embora não se pudesse ver o rosto da colega pela página impressa, podia se imaginar que ele não estava corado. Mas era, escandalosamente, uma matéria favorável, daquelas que nem a agroquímica, por sua conta, teria feito melhor. O limite entre o jornalismo e a propaganda era tão tênue que seria difícil dizer que não se tratava de um grande e bem sucedido release. Os jornalistas mais conservadores continuam estranhando esta postura, mas conseguem, como eu, entender a trama: afinal de contas, a jornalista havia viajado para fazer a reportagem a convite... da empresa, é claro.
Todos nós sabemos: um jornalista depende basicamente das suas fontes. Isso significa que, como mediador, ele recorre necessariamente a outras pessoas para obter informações e, com isso, esclarecer a sua audiência (leitores, telespectadores, radiouvintes ou internautas).
Na prática, no entanto, esse processo, aparentemente óbvio, tem se caracterizado, quase sempre, por algumas particularidades.
Em primeiro lugar, um número significativo de notícias/reportagens está respaldado em apenas uma única fonte, ou seja, não há pluralidade de falas ou vozes, opiniões ou versões, como se deveria esperar. Uma pessoa apenas dá o recado e a matéria se encerra por aí, com a maior tranqüilidade. O jornalista lava as mãos e vai dormir em paz, certo de que cumpriu bem a sua tarefa.
Em segundo lugar, as fontes são tidas muitas vezes como descomprometidas, ou seja o jornalista assume que está diante de uma voz ou fala independente. Este fato é mais dramático em algumas coberturas do que em outras. Na política, costuma-se admitir que há diferenças de visões ou de interesses em função de partidos e do jogo recorrente entre situação x oposição. Ouve-se pelo menos um parlamentar a favor e um contra para repercutir determinado tema ou assunto. Aceita-se pois que há interesses em disputa, embora muitas vezes a imprensa assuma uma perspectiva oficialesca (como gostam e confiam nas autoridades os nossos colegas!). Já, por exemplo, na economia e negócios (incluindo aí as coberturas específicas de agronegócio, telecomunicações etc), ciência e tecnologia e saúde, a monofonte (termo utilizado aqui para designar tanto uma fonte única como para identificar um conjunto de fontes que defendem os mesmos interesses) predomina.
Finalmente ( e o problema acontece com freqüência e é grave), são acessadas as fontes que têm vínculos comerciais com o veículo, do tipo operação casada, comum especialmente em editorias e veículos especializados. Você já percebeu como os executivos (as fontes) que participam de determinadas reportagens são da mesma empresa (ou entidade, ou do governo) que anuncia no veículo?
Alguns veículos prezam tanto a sua sustentabilidade que abrem mão de seu compromisso público e fica mesmo difícil cobrar deles alguma coisa porque, no fundo, são apenas captadores de anúncios e bajuladores de autoridades. Não debatem coisa alguma, são veículos-releases a serviço de qualquer um (que possa pagar a conta).
A imprensa brasileira (na verdade, é sempre mais correto reconhecer que há imprensas brasileiras – no plural - porque há diferentes sistemas de produção e culturas jornalísticas em nosso País) abriu mão há muito de sua capacidade investigativa e tem se tornado burocraticamente preguiçosa. Há exceções, é claro, mas elas podem ser contadas com os dedos das mãos.
A situação é mais escandalosa quando contemplamos alguns setores e empresas. É possível perceber esta falta de espírito crítico em determinadas coberturas, como a de medicamentos, agroquímica, biotecnologia, as montadoras e até a indústria tabagista e de bebidas, quando se esperava que as suspeições com respeito à defesa de interesses privados fossem normais.
A indústria da saúde faz o seu lobby pela imprensa, muitas vezes pressionando os governos (ameaça de demissões e de retaliações internacionais) e manipulando a opinião pública, com o objetivo único de vender medicamentos, muitos deles de eficácia discutível e mesmo nocivos à saúde. Nunca se retirou tanto remédio do mercado como agora, o que comprova a ineficácia dos órgãos reguladores/controladores e a dificuldade de enfrentar estes gigantes. A ANVISA faz um excelente papel, mas ainda há etapas a vencer, mesmo porque o jogo político é pesado e nem sempre quem cuida da saúde é quem decide no Brasil.
A relação espúria entre política e economia predomina, o que torna difícil, quase impossível, a ação de agências (como a ANVISA), institutos (como o IBAMA) etc.
Os fabricantes de transgênicos continuam insistindo no argumento, com a complacência da mídia, de que os seus produtos são a opção para matar a fome do mundo e cinicamente jogam nos bastidores tentando travestir de ciência o que é apenas interesse comercial. Falam contra os agrotóxicos e se valem deles para aumentar os seus lucros , ao mesmo tempo em que aprofundam o processo de concentração e monopólio das sementes em todo o mundo, inclusive e especialmente no Brasil.
A indústria agroquímica, de mineração , tabagista, o sistema financeiro mantêm o seu discurso hipócrita de sustentabilidade enquanto poluem o solo e a água, predam os recursos naturais e afrontam a biodiversidade. “Os bancos do planeta” pululam por aí, mas devem ser de outro planeta porque neste aqui cobram juros obscenos, descartam os que não têm saldo médio, demitem sem dó, o que, convenhamos, nada tem a ver com o conceito que proclamam de sustentabilidade. Você já percebeu como as campanhas das empresas que atuam nestes setores (que investem centenas de milhões para limpeza de imagem) proclamam, repetidamente, a sua sustentabilidade ambiental? Freud explica e a sociedade consciente repudia.
A indústria tabagista (vamos nos fixar na Souza Cruz e na Philip Morris, as que dominam o mercado) tenta legitimar a sua ação deletéria à saúde se candidatando a prêmios de responsabilidade social ( a falta de compromisso das entidades patrocinadoras facilita essa estratégia). Proclama que paga impostos demais, mas causa um prejuízo enorme para o sistema de saúde com os seus produtos nocivos, e vivem defendendo a tese de que empregam muita gente (e é verdade mesmo!) como se esse argumento fosse razoável (o tráfico de drogas, a indústria de armas etc também empregam muita gente, assim como a indústria de amianto e outras menos votadas!). Não podemos nos esquecer de que cigarro também é droga, embora lícita ( o que quer dizer: mata com a permissão de governos e autoridades em todo o mundo). A própria indústria tabagista não nega mais isso, embora, ao longo do tempo, tenha feito o diabo para esconder o efeito nefasto do cigarro.
As montadoras, que em época de crise vivem chorando pelos corredores de Brasília, festejam lucros enormes à custa da venda de milhões de automóveis , tornando o trânsito infernal nas grandes cidades e aumentando terrivelmente a poluição do ar. Nunca houve tantos “recalls” de veículos, o que talvez seja fácil explicar: a legislação é frouxa (um pequeno anúncio na mídia já resolve o problema causado aos consumidores) e o controle de qualidade cada vez mais precário porque a ânsia pelo lucro (modelos precisam ser lançados imediatamente) não permite maior atenção à segurança dos veículos. Os nossos por aqui, segundo pesquisa recente, têm um índice de segurança equivalente aos da Europa há 20 anos. E elas mamam nas tetas dos governos com uma volúpia de causar inveja, com descontos de impostos, vantagens para instalar fábricas etc etc.
A imprensa faz a apologia do aumento da área cultivada por transgênicos, dos recordes da venda de automóveis, da responsabilidade social da indústria tabagista (que mata milhões anualmente em todo o mundo), da sustentabilidade da indústria agroquímica (agrotóxico é veneno, não remedinho de planta!) e publica escandalosamente releases de corporações que só se interessam em aumentar os seus lucros.
Estas notícias / reportagens quase sempre estão subsidiadas pelas fontes privadas (cada vez mais competentes em programas de “media training”), com o apoio de algumas agências/assessorias que sobrevivem do trabalho sujo de “limpeza de imagem”.
Para evitar leituras e interpretações equivocadas, vamos deixar claro que há excelentes assessorias e agências de comunicação e que os comentários aqui postados não se endereçam ao setor como um todo. Mas é preciso não haver dúvida de que o jogo feito para tentar convencer a imprensa e a opinião pública da responsabilidade social da indústria tabagista, da sustentabilidade da indústria agroquímica, do compromisso da indústria de transgênicos com a redução da fome ou mesmo da eficácia de determinados medicamentos, representa desrespeito à ética e à cidadania.
A imprensa brasileira, e os jornalistas em geral, precisam retomar a sua capacidade investigativa e duvidar da boa-vontade de determinadas fontes, partindo sempre do pressuposto de que “não existe almoço grátis”. Enquanto isso, vamos continuar assistindo à multiplicação dos “a convite de”, de coletivas bem freqüentadas (especialmente quando há farta distribuição de brindes e almoços generosos) e de outras benesses patrocinadas por interesses privados ou públicos, muitas vezes excusos.
Não fica bem comer na mão de determinadas fontes. O bom jornalista e o veículo (pelo menos o que se preza) deveriam no mínimo observar a limpeza da mão que os alimenta. A democracia e a cidadania agradeceriam muito se eles tomassem este cuidado básico.
Em tempo: parabéns à Dilma que acaba de sancionar lei impondo restrições ao fumo, em mais uma tentativa para evitar que milhões de brasileiros sejam penalizados pela ação deletéria do tabaco, comercializado e contrabandeado livremente em nosso País.
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Segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
As mídias ambientais autênticas e a democracia da informação |
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Os jornalistas ambientais e interessados na questão ambiental reuniram-se, recentemente, no Rio de Janeiro, com o objetivo de analisar as tendências e os desafios enfrentados por quem cobre regularmente o meio ambiente, bem como para compartilhar saberes e experiências, e sobretudo rediscutir o papel da imprensa e de seus profissionais num planeta ameaçado.
O aquecimento global, a insegurança alimentar, a ameaça dos grandes projetos como Belo Monte (Belo Monte de porcaria!), a favelização das metrópoles, a pressão insuportável do agronegócio sobre os povos da floresta (aumentada com a aprovação do novo Código Florestal), o primado das monoculturas e a degradação da qualidade de vida são pautas candentes e estiveram na agenda do evento.
O momento exige reflexão mas também ações concretas para impedir que interesses de toda ordem (políticos, empresariais, pessoais etc) se sobreponham ao interesse público.
O Brasil, dono da maior biodiversidade do mundo, deve liderar esse processo de mobilização e, ao contrário do que postulam governos desenvolvimentistas, precisa contribuir para que o cenário atual, dramático e socialmente injusto, se modifique.
O jornalismo ambiental precisa estar fortalecido para enfrentar as ameaças que surgem avassaladoras no horizonte, como a escassez de água potável, a destruição acelerada das florestas e o uso de padrões insustentáveis de consumo. Mas o jornalismo ambiental também precisa repudiar as soluções cosméticas que têm como objetivo desviar o foco e que apenas prorrogam a agonia de um mundo que insiste em desafiar a lógica da sobrevivência. Deve impedir que se continue chamando “plantação de eucaliptos” de florestas porque essa expressão afronta o conceito de florestas que só tem importância quando permanecem em pé, quando, além da madeira para fabricação de papel e móveis, dão sombra, protegem o solo, oferecem frutos, ou seja representam a síntese verdadeira da biodiversidade. “Plantação de eucaliptos” é outra coisa e tem servido para impor mais uma monocultura, que ameaça sensivelmente a sustentabilidade.
Nesse contexto de formação, contextualização, mobilização, esclarecimento, as mídias ambientais são absolutamente indispensáveis. Em primeiro lugar, porque , resistentes aos assédios de governos e empresas, têm conseguido furar o cerco para pautar temas que são ignorados pela grande imprensa. Em segundo lugar, porque elas estão efetivamente comprometidas com a causa ambiental e não contemplam o meio ambiente como mais um assunto para aumentar audiência. Por isso, mais do que informar elas formam consciências e convidam para a mobilização. Em terceiro lugar, porque as mídias ambientais desenvolveram um discurso, uma linguagem própria que, mais do que as mídias tradicionais, favorece o diálogo com os jovens, protagonistas principais do nosso futuro. Finalmente, as mídias ambientais têm a legitimidade que a sua independência editorial lhes confere.
As mídias ambientais, no entanto, apesar de sua relevância indiscutível, são ainda objeto de preconceito por parte de agências, anunciantes e governos. Há quem argumente que elas, situadas fora do circuito estritamente comercial do mundo da comunicação, encontram dificuldades para atrair e convencer aqueles que apenas entendem a lógica do “custo por mil” e que se acostumaram à métrica equivocada dos planejamentos de mídia. Embora com grande influência em determinados segmentos da população, as mídias ambientais privilegiam a qualidade do debate e da audiência e não têm lançado mão do sensacionalismo para arregimentar leitores, ouvintes, telespectadores e internautas.
As mídias ambientais têm, muitas vezes, se defrontado com o desafio de sua própria sustentabilidade, mas permanecem firmes, respaldadas em um compromisso que, inclusive pela sua ação, se dissemina por amplos setores da sociedade: a preservação dos recursos naturais, a redução da pobreza e das desigualdades, o estímulo à pluralidade e a luta pela biodiversidade.
As mídias ambientais são penalizadas pelo cerco ideológico organizado por setores conservadores da sociedade brasileira que pregam a despolitização do debate ambiental, temendo que ele possa ameaçar os seus lucros e privilégios. Elas são estigmatizadas por governos e empresas que não querem ver expostas suas ações nefastas contra o meio ambiente, ainda que mantenham um discurso hipócrita, como o que caracteriza o chamado “marketing verde”.
As mídias ambientais têm conseguido elevar e manter o tom do debate, impedindo que a questão ambiental caia no lugar-comum. Ela resiste em adotar o padrão habitual da imprensa que levanta e derruba pautas ao sabor da audiência. Ela pratica o verdadeiro conceito de meio ambiente, não o reduz a situações pontuais e aparentemente distantes, como a extinção das baleias ou o degelo na Antártica, embora as inclua, visto que fazemos, queiramos ou não, parte de planeta único. As mídias ambientais sabem efetivamente o que significa ecossistema e nos vêem, todos nós, como passageiros de uma mesma nave que trafega pelo espaço, vulnerável às intempéries, particularmente aquelas que temos irresponsavelmente provocado com o nosso consumo desenfreado e a ganância odiosa de empresas e governos.
As mídias ambientais precisam ser olhadas (lidas e ouvidas) com atenção porque elas têm apontado sistematicamente para a solução dos problemas que nos afligem. Elas sabem que o meio ambiente tem íntima relação com a economia, com a cultura e com a sociedade; elas praticam a solidariedade e, diferentemente de outras mídias, da maioria das empresas e de governos, vêem os habitantes do planeta como irmãos e não como “potenciais clientes”.
As mídias ambientais são essenciais e, portanto, merecem ser prestigiadas, reconhecidas, valorizadas. Sem esse olhar comprometido, o debate sobre o meio ambiente tende a se transformar em uma simples “commodity intelectual”, que se comercializa nas falas e políticas de governos e que freqüentam as mensagens publicitárias de empresas predadoras. Entre as facilmente identificáveis com esse perfil nefasto, é preciso incluir os representantes do sistema financeiro que se proclamam sustentáveis, ao mesmo tempo que massacram clientes com juros obscenos , infernizam seus funcionários para que atinjam metas irrealizáveis e promovem a demissão sucessiva dos seus “colaboradores”.
Um país efetivamente comprometido com o meio ambiente precisa de mídias ambientais robustas, independentes e sustentáveis. Elas certamente nos ajudarão a combater esta mentalidade transgênica, mineradora, celulósica, agrotóxica, que defende a plantação de soja , de cana e de outras commodities, agrícolas ou não, como a nossa vocação maior ou única. Esta mentalidade poluída que sequestra a nossa água, consome a nossa energia, emporcalha as nossas cidades, contamina os nossos campos, dizima os nossos indígenas e transforma milhões de brasileiros em escravos e bóias-frias.
Em tempo 1: É preciso estar atento para mídias ambientais de fachada que surgem aqui e acolá, sem raízes com a verdadeira cobertura ambiental, e que têm como objetivo legitimar posturas inaceitáveis e angariar lucros explorando a temática ambiental .
Em tempo 2: É preciso também que as mídias ambientais autênticas estejam sempre dispostas a resistir ao assédio de empresas que buscam utilizá-las para o seu processo sujo de “limpeza de imagem”. Em nome de uma pretensa sustentabilidade, empresas, governos e até partidos políticos e parlamentares investem recursos significativos para aparecerem “bem na fita”, ao mesmo tempo que persistem em sua escalada contra o meio ambiente e a qualidade de vida dos cidadãos. Não é razoável abraçar predadores e nem lhes estender a mão, permitindo que continuem alimentando, sem escrúpulo, a sua ganância pelo lucro e pelo poder.
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Domingo, 4 de dezembro de 2011
Chevron emporcalha nosso mar e sua reputação |
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Tão pouco transparente como a enorme mancha de óleo que atingiu a Bacia de Campos, tem sido a Chevron, responsável por mais este lamentável crime ambiental em nosso país. Desde o momento em que tomamos conhecimento do acidente (sujeira no mar, infelizmente para a petrolífera, não é coisa fácil de se esconder!), a empresa tem buscado minimizar os danos, falsear a verdade, tentando convencer-nos de que na verdade o problema ocorreu devido a uma falha geológica, o que todos sabemos é mentira. Ela repete, no fim das contas, o velho argumento hipócrita “ foi por acaso, foi Deus quem quis”, o mesmo utilizado pelas grandes construtoras do Consórcio Via Amarela quando do acidente conhecido como “o buracão do Metrô”, que ceifou vidas e residências na linha 4, em Pinheiros/São Paulo.
Empresas social e ambientalmente irresponsáveis não apenas cometem crimes, mas tentam escondê-los, o que, em tempo de redes sociais, com tantos olhares vigilantes sobre a indispensável sustentabilidade planetária, deve ser terminantemente repudiado.
O importante, neste caso, não é apenas acompanhar os desdobramentos deste acidente, que impacta dramaticamente a biodiversidade, mas avaliar a vulnerabilidade dos nossos sistemas de prevenção e fiscalização. Afinal de contas, uma empresa que, como acabamos de descobrir, não tem sequer um plano de contingência, pode ir furando milhares de metros por aí sem qualquer controle? Multas (irrisórias!) compensam o dano ambiental? O que dizer da Petrobras, que aparece como sócia da empresa (segundo matéria do Valor Econômico, publicada no dia 23/11/2011,p. A5, a estatal tem 30% e a Impex, empresa japonesa, 18,3% da sociedade)? Podem as empresas sócias lavar as mãos nesse caso? Não existiria uma co-responsabilidade , se não legal pelo menos moral, quando a inépcia, a negligência ou a incompetência técnica provocam crimes ambientais?
A impressão que fica é que, como temos uma estatal como sócia, haverá uma tendência de a ANP – Agência Nacional de Petróleo e do IBAMA serem mais generosos nas multas, o que confirmaria apenas o que de há muito vem ocorrendo por aqui: a maioria das multas por crimes ambientais nunca é paga. As autoridades fazem barulho, roncam grosso (jogam para a torcida), mas no fundo sabem que os recursos judiciais farão com que as empresas envolvidas nunca arquem efetivamente com os custos de sua irresponsabilidade. Convenhamos, assim é fácil, mas, com isso, privilegia-se a impunidade e, consequentemente, a chance de que os crimes sejam recorrentes, como temos assistido em nossa terra.
Com a aproximação da Rio + 20, fica claro que os desafios a enfrentar, na questão ambiental, são enormes e que, se não botarmos o dedo na ferida, não estancaremos o esgotamento da vida no planeta, maltratado sistematicamente por corporações gananciosas e por autoridades que, por sua displicência, se tornam cúmplices de tragédias como mais essa que nos atinge agora.
Está na hora de assumirmos uma posição vigorosa com respeito aos que insistem em afrontar a diversidade, emporcalhar o solo, ar e a água (agrotóxico é veneno e não remedinho pra planta), envenenar nossos pulmões, laringes, bocas, estômagos com suas drogas lícitas (como a indústria tabagista) e deitar óleo sem dó nos nossos oceanos, como fez recentemente a BP no Golfo do México e agora a Chevron na Bacia de Campos, exemplos reais dos riscos a que nos submetem os responsáveis pela aventura petrolífera em águas profundas.
Temos que agir com parcimônia em nosso entusiasmo, quando saudamos a redução episódica dos níveis de desmatamento em nosso País (eles declinam ou crescem dependendo do ano e até em função do agente que faz a medição) porque, como a floresta é finita, ela se esgotará a médio prazo, se continuarmos devastando anualmente um Estado de Sergipe.
A matança de indígenas no Centro-Oeste, a perseguição a líderes ambientalistas no Norte do País, a desorganização provocada em Altamira pela usina de Belo Monte (belo monte de porcaria!), o que é comum em todos os megaprojetos que avançam sobre os nossos biomas, a nossa cultura e sobre as comunidades tradicionais, precisam ter fim.
Felizmente, no caso do crime ambiental da Chevron, mesmo os jornalões, conservadores como são, não puderam fazer vistas grossas aos danos e à irresponsabilidade. O Estadão, em editorial publicado no dia 23/11/2011, reclamava: “torna-se imperativo dispor de um Plano de Contingência para casos de acidentes deste tipo, reclamado há 11 anos por ambientalistas”.
Este crime ambiental teve seus desdobramentos exatamente no momento em que centenas de jornalistas e estudiosos se reuniam na PUC/RIO por ocasião do Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental. Um evento que se caracterizou pela presença expressiva de jovens, pela disposição em cerrar fileiras para mudar o cenário desfavorável que se avizinha, respaldada na convicção de que é necessário formar, informar, mobilizar, e denunciar, quando necessário, para que o planeta tenha ainda alguma chance diante de tantas e violentas agressões.
Este modelo de desenvolvimento, capitaneado por uma ideologia que privilegia o aumento do consumo e dá as costas ao impacto ao meio ambiente e à qualidade de vida, precisa ser freado urgentemente, mas isso passa obrigatoriamente por uma mudança de postura, por uma vontade política que esteja efetivamente comprometida com a sustentabilidade.
Os debates no Congresso de Jornalismo Ambiental deixaram claro que estamos postergando medidas urgentes e que é preciso agir rapidamente, transpondo o limite do mero discurso (como é a prática do marketing verde, sistematicamente utilizado por empresas, setores e governos predadores) para uma ação enérgica em prol da reconstrução de um ambiente saudável.
A Chevron protagonizou um crime ambiental condenável, mas ele é conseqüência de um modelo perverso que , apoiado na geração de lucros obscenos e imediatos para poucas empresas, põe em risco o futuro das novas gerações.
Estejamos todos dispostos, como pregava o mestre Paulo Freire, a praticar a pedagogia da indignação e que não nos calemos diante de tragédias presentes e anunciadas. Há muitas Chevrons por aí e é fundamental que possamos identificá-las, controlá-las, exigindo das autoridades uma punição exemplar. Será que teremos que esperar por uma catástrofe de proporções inimagináveis para que, finalmente, cheguemos à conclusão de que algo precisa ser feito?.
A Chevron tem culpa sim (e muita), mas é preciso coragem e auto-crítica para assumirmos que estes crimes continuam acontecendo pela nossa omissão, falta de coragem e incompetência . Queiramos ou não, este crime ambiental , em algum momento, teve a participação de todos nós. Vamos continuar lavando as mãos?
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Domingo, 4 de dezembro de 2011
Uma organização tem vários públicos internos. Esquecer disso constitui grande equívoco |
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É comum, na literatura – ainda reduzida infelizmente – sobre a comunicação interna nas organizações encontrarmos referência a expressões ou termos como “público interno” e “colaboradores”, utilizados, quase sempre, para designar o conjunto de funcionários ou empregados.
Sempre estranhamos o uso recorrente da expressão “público interno” no singular, assim como julgamos, na maior parte dos casos, hipocrisia designar os funcionários como colaboradores. Será razoável acreditar que se pode reunir todos os funcionários de uma organização num mesmo grupo? Há mesmo essa homegeneidade? Será lógico reconhecer que todos os funcionários colaboram? E deveriam colaborar, levando em conta o grau de autoritarismo das chefias que predomina em boa parte das organizações? Mas nos preocupemos no momento com a expressão público interno até porque temos tratado aqui, com freqüência, do caráter autoritário que está inserido no DNA de muitas organizações.
Com certeza, conjugar público interno no singular está em contradição com a complexidade que costuma caracterizar as organizações. Há diferenças significativas entre as pessoas que participam do ambiente interno das organizações e, ao se propor produtos, ações e estratégias para interagir com elas, é fundamental ter esse fato em mente. Se não fizermos isso, poderemos cometer um equívoco formidável.
Tomemos como exemplo uma organização que nos é bastante familiar para esclarecer esta situação: uma universidade. Nela, podemos, a grosso modo, distinguir pelo menos três públicos internos, com características bem singulares: os alunos, os professores e os funcionários. Cada um deles têm um perfil específico, características bastante definidas e, em particular, vínculos distintos com a organização. Há, entre eles, algumas diferenças básicas de idade (os alunos, em geral, são mais jovens do que funcionários e professores), experiência de vida (maior nos mais velhos), nível de informação (provavelmente, maior nos professores) e até formas peculiares de enxergar a educação, o ensino e o mercado profissional.
Podemos , com facilidade, tornar mais complexo este cenário , admitindo que , dentro de cada um destes grupos (alunos, funcionários e professores), existem subgrupos com características distintas. Por exemplo, há alunos com interesses específicos (como os dos cursos de ciências humanas , exatas e biológicas), professores titulados e mais jovens e funcionários com pouco ou muito tempo de casa. Há até pessoas que trabalham ou prestam serviços, mas que são diferentes do funcionário típico, porque pertencem a empresas terceirizadas e que, portanto, têm com a universidade uma relação muito especial. Nós, que pertencemos ao grupo de profissionais de comunicação, sabemos que estas diferenças são importantes e que ajudam a explicar, inclusive, dentro da nossa própria área, algumas incompreensões e preconceitos entre colegas de formação diferente (a velha e não saudável disputa entre relações públicas, jornalistas e publicitários).
Logo, fica claro que existem vários públicos na universidade, muito mais do que se pode imaginar à primeira vista.
Mas por que essa constatação é tão importante? Porque, se não a tivermos presente no momento de elaborarmos uma política ou um plano de comunicação, deixaremos de contemplar esta diversidade e poderemos, facilmente, praticar os chamados “ruídos” da comunicação.
Algumas conseqüências e decisões precisam ser tomadas, se aceitamos como válida e importante esta diversidade, como, por exemplo, a absoluta necessidade de se relacionar com os públicos (já não estamos mais nos referindo a público no singular) de forma distinta. Ou seja, se os públicos têm características, perfis e, por extensão, demandas diferentes, faz sentido levar isso em conta no planejamento da comunicação interna.
Como isso poderia ser resolvido na prática? Ora, buscando personalizar os contatos, os veículos, os discursos , as falas e assim por diante.
Todos nós sabemos que as pessoas têm hábitos de comunicação que estão em sintonia com sua experiência de vida, seu conhecimento etc. Assim, em uma universidade, para continuarmos com o mesmo exemplo, não será razoável imaginar que um único jornal interno possa, satisfatoriamente, contemplar todas essas demandas. Que temas ele deveria abordar para contentar a todos? Que linguagem deveria ser utilizada? Incluiria muitas fotos ou não?
A prática da comunicação interna das nossas organizações parece ignorar isso. Quase sempre, embora existam inúmeros públicos internos, os veículos e os canais de relacionamento continuam se reduzindo a um só, que é encaminhado para todo mundo. Na maioria das vezes, imagina-se que um house-organ – o chamado jornal interno - tipo Bombril (mil e uma utilidades) pode dar conta das expectativas de todos os públicos internos e, desta forma, ele se endereça tanto para o alto executivo como para o colega do chamado “chão de fábrica” ( não cabe aqui nenhum preconceito ou juízo de valor).
Se pensarmos adequadamente, chegaremos à conclusão de que há, nesse caso, uma chance enorme deste veículo não satisfazer a nenhum dos públicos, já que não foi concebido com “a cara” de nenhum deles em particular, mas como se fosse uma média de todos. E média é sempre uma ficção. Provavelmente, será até razoável acreditar que determinados grupos sociais não têm interesse pela mídia impressa porque, sobretudo na realidade brasileira, há pessoas que têm uma dificuldade imensa de leitura.
Para cidadãos com nível de instrução média ou superior e que, isso é importante, cultivem o hábito de leitura ( sabemos que há colegas nossos na universidade que fogem da mídia impressa como o diabo da cruz!), pode parecer lógico dispor de um jornal ou revista, mas é preciso atentar que a escrita pode ser uma barreira intransponível para muita gente. Basta resgatar pesquisas recentes que têm constatado o índice alarmante de analfabetismo funcional (pessoas que não conseguem entender textos simples) em nosso País. Seria talvez mais adequado propor uma rádio ou vídeo-jornal para interagir com esses colegas.
Vivemos a era da segmentação, da personalização dos contatos, e a comunicação deve, obrigatoriamente, incluir esta perspectiva sob pena de perder a eficácia. Considerar que existem públicos internos (e não, um público interno) em uma organização é o primeiro passo.
A providência seguinte será conhecer o perfil e definir as demandas de cada público em particular para que se possa implementar canais e formas de relacionamento (inclusive formatos e discursos) que estejam em sintonia com eles.
A maioria das organizações ainda não conhece, com tal detalhamento, os seus públicos internos e, muitas vezes, apenas se vale das informações que existem no cadastro, na ficha pessoal dos funcionários no momento de sua entrada na organização. Estes dados se resumem muitas vezes a algumas variáveis como sexo, idade, nível de instrução, residência ou mesmo número de filhos, mas é possível concluir, sem muito esforço, que eles são insuficientes para um planejamento sólido em comunicação interna. Mulheres com a mesma idade e mesmo nível de instrução não são exatamente iguais sob o ponto de vista das demandas por comunicação (preferências por temas , linguagens e formatos). Por exemplo, algumas podem ser mais politizadas do que outras, terem maior consciência ambiental, praticarem uma religião, terem acesso à TV a cabo e à Internet e esses dados (quase sempre ignorados na ficha dos funcionários) influenciam a forma pela qual as pessoas vêem o mundo, a organização e a própria comunicação.
Como se pode depreender destas considerações, dispor destas informações será fundamental num planejamento em comunicação porque pessoas diferentes respondem diferentemente a estímulos (formas e conteúdos de comunicação) originados nas organizações.
A comunicação interna deve ser pensada com essa complexidade, embora isso signifique abrir mão de uma série de práticas que estamos repetindo há algum tempo. Não há outra saída, se pretendemos maximizar o nosso relacionamento com os públicos internos das nossas organizações.
Cada público deve ser visto em suas particularidades, em suas demandas, em suas expectativas, em sua forma específica de comunicação. O que pode ser razoável para um deles pode ser contraproducente para os demais. Uma newsletter , sem fotos, repleta de informações sobre o mercado , encaminhada via e-mail, pode ser o instrumento adequado para os executivos de primeira linha, mas desinteressante ou inatingível para os colegas de outros níveis da estrutura organizacional. O jornal de negócios Gazeta Mercantil continua sendo o veículo preferido pelos executivos das nossas organizações, embora seja, para a maioria das pessoas, difícil, “chato” de ser ler, já que raramente traz fotos ou ilustrações e tem uma linha editorial bastante específica, com temas em geral especializados.
Quando consideramos a expressão “públicos internos” no lugar de “público interno” no singular, estamos resgatando este conceito fundamental e, sem dúvida, criando condições para uma comunicação mais competente.
Pena que a maioria das nossas organizações ainda insista em enxergar as coisas da maneira mais cômoda e mais fácil e prefira simplificar ao extremo a comunicação interna. Provavelmente, elas conseguem, com isso, (será que conseguem mesmo?) reduzir custos, mas, podemos apostar, não devem estar obtendo os resultados que tanto desejam ou de que precisam.
Públicos internos no plural. Muitos, muitos públicos. É assim que tem que ser.
Em tempo 1: É razoável também encarar os alunos como clientes e, portanto, eles podem ser vistos, dependendo da perspectiva, como público interno ou externo.
Em tempo 2: A Comunicação Interna precisa urgentemente ser assumida como prioritária e contemplada à luz da teoria da complexidade. Andam simplificando demais a Comunicação Interna, o que aumenta o risco (já grande) de que ela não funcione efetivamente.
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